A Origem (2010)


Cotação: 7

Desde quando iniciei o Cultura Intratecal sempre optei por escrever posts com textos curtos e objetivos, afinal vivemos em um mundo cada vez mais dinâmico e todos sabemos que o tempo tornou-se uma preciosidade. Além disso, eu penso: quem diabos sou eu pra escrever linhas e linhas sobre algo que não é minha especialidade? Sim, eu amo o cinema, procuro aprender sobre tudo que envolve a realização de um filme e vejo o maior número de filmes possíveis, mas isso não me torna uma autoridade no assunto. Textos grandes e de qualidade comprovada eu deixo para os críticos de verdade, como o Pablo Villaça, Roger Ebert e o James Berardinelli, por exemplo. Sou um mero apreciador que gosta de fazer comentários a respeito do que assiste, por isso escrevo texto curtos e diretos.

Fiz esse parágrafo para que vocês saibam que eu escrevo sobre filmes sem pretensão alguma.

E sem pretensões de estar certo (esse conceito de certo e errado existe mesmo?) preciso escrever sobre A Origem, o filme do momento. Peço paciência (e coragem), pois é impossível esse texto não ser mais longo do que o habitual.

Primeiro devo dizer que gostei do filme. É um blockbuster com conteúdo e que sem dúvida vale o ingresso do cinema, mas ele está longe de ser uma obra-prima. O próprio Nolan já fez trabalhos bem melhores do que esse, como The Dark Knight e Memento. A ideia principal de A Origem é extremamente criativa e empolgante, mas Nolan errou ao transformar um belo exemplar de ficção científica em um filme de ação cansativo.

Não entendo esse endeusamento. Será que eu sou o único que teve dificuldades em suportar as cenas de ação pra lá de longas? Li um crítico que disse que os sonhos de Nolan parecem ser dirigidos pelo Michael Bay e ele não está longe da verdade. Aquelas cenas na neve mais parecem um filme do James Bond, só que sem a classe e qualidade do mesmo.

Nolan merece aplausos por transformar uma ideia complicada em algo bem acessível. Se você prestar atenção na tela não terá dificuldades em entender toda a ideia dos 3 níveis de sonho (mais o limbo) e essa é a parte que merece aplausos. Agora, 90% do filme é ação, tiros e explosões para todo o lado. Tirando a sequência no hotel sem gravidade, as outras podem levar qualquer um a um sono profundo.

Mas e a história?

Cobb (Leonardo DiCaprio) é o líder de um grupo que invade os sonhos das outras pessoas em busca de seus segredos. Arthur (Joseph Gordon-Levitt) é o seu principal parceiro nessas atividades. Nas cenas iniciais do filme aprendemos como funciona todo esse procedimento e é algo bem estimulante.

Eles recebem uma proposta de Saito (Ken Watanabe). Em vez de roubar, Saito quer que eles plantem uma ideia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), filho de um bilionário que está prestes a morrer. O que Saito quer é que Fischer decida dividir o império do próprio pai.

Para realizar essa tarefa complicada, Cobb pede auxílio a Eames (Tom Hardy), Yusuf (Dileep Rao), um químico capaz de fazer um sedativo extremamente potente e Ariadne (Ellen Page), a nova arquiteta do mundo dos sonhos.

Não me perguntem qual a importância de que Fischer divida o império do pai, Nolan realmente não faz questão que saibamos o motivo disso. Na realidade, é apenas uma desculpa para que a concepão do sonho dentro do sonho dentro do sonho comece. Sem problemas.

Cobb mostra para Ariadne o trabalho que ela vai ter que executar. Ver a garota explorando todas as possibilidades dos sonhos é um dos grandes momentos do filme e é algo que faz falta no resto da projeção.

Ok. O próprio roteiro faz questão de nos informar que, para que o roubo de segredos e a inserção funcionem, o mundo dos sonhos deve ser o mais parecido possível com o mundo real. Mas caramba. Qual a graça de ver um sonho quase 100% igual ao mundo real?

Queria ser brindado com mais cenas, como aquela em que Ariadne literalmente coloca a cidade de cabeça para baixo. Isso sim é um sonho de verdade, isso sim é empolgante.

Mas não. Nolan preferiu criar essa regra do sonho mais real possível e acabou com minha alegria.

De qualquer forma, há algo de extrema genialidade em A Origem (além da ideia original), tanto da direção, como da montagem. A maneira como os três sonhos são sincronizados desde a metade do filme até o clímax é de uma beleza única. A trilha sonora de Hans Zimmer e a entrega desses excelentes atores contribui para que tudo funcione direitinho, só que, infelizmente, não houve possibilidade de criarmos uma conexão emocional com esses personagens. Se um deles morresse não iria fazer diferença pra mim.

Cada nível de sonho dura um tempo específico no tempo real e a forma como conseguiram deixar tudo isso compreensível para o público é digno de nota. Alguém já viu algo tão ambicioso assim antes? Por isso que A Origem merece reconhecimento, mas deve-se ter calma.

Ele não é tão complexo como alguns fazem questão de afirmar e a ação é extremamente cansativa. Eu poderia passar umas 4 horas assistindo as cenas de ação de Matrix, mas foi difícil aguentar as duas horas e meia de tiros, perseguições e explosões em A Origem.

Se Nolan explorasse melhor os seus personagens (só Cobb é satisfatoriamente desenvolvido), se adicionasse um pouco de humor e cortasse uns 20 minutos de ação estafante, aí sim eu concardaria em chamar A Origem de obra-prima.

Ano passado houve um excesso em relação a Avatar e está acontecendo agora com A Origem. É óbvio que o filme de Cristopher Nolan é umas 10x melhor que o filme de James Cameron, mas isso não fez dele a última coca-cola do deserto, se é que vocês me entendem.


Título original:
Inception
Ano: 2010
País: EUA
Direção: Cristopher Nolan
Roteiro: Cristopher Nolan
Duração: 148 minutos
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dlieep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postletwaite, Michael Caine

imdb

/bruno knott

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17 comentários sobre “A Origem (2010)

  1. De fato, a trama não é complexa. A forma como Christopher Nolan decidiu apresentá-la é que é complexa e que exige da gente. Eu entendo a forma como você enxergou o filme, o fato de você não ter enxergado genialidade nele e respeito esta tua opinião. Mas, só pelo fato de ter imprimido sua marca e por ter tentado levar a linguagem cinematográfica à frente, Nolan merece todo meu respeito.

    • Achei genial como ele conseguiu transformar uma ideia complexa em ambiciosa em algo bem acessivel… mas o excesso de ação e a falta de imaginação nos sonhos atrapalharam minha experiencia…

  2. Oi, Bruno, respeito sua opinião e entendo que você não tenha se empolgado tanto, mas o que me impressionou em A Origem foi exatamente esse balé cinematográfico que Nolan construiu, não cheguei a chorar como Pablo Villaça, mas achei um desbunde. Tem razão de dizer que não é uma obra-prima, mas tem algo nele que nos fisga, e não achei nem um pouco cansativo, tanto que já vi duas vezes.

    bjs

  3. Não compartilho de suas ressalvas. Achei uma obra-prima. Acho que é na emoção que a obra atinge sua complexidade. Aquela catarse final não é só do Fischer, é da audiência.

  4. Ainda não assisti “A Origem”, não sei…mas nunca fui de ser fã de filmes do gênero, cheio de tiros e etc…Então, estou esperando ter uma certa ‘paz de espírito’ para ver ‘A Origem’. Achei bacana a sua crítica, em principalmente colocar tua opinião sobre o filme, muitas pessoas acabam indo pelos outros e deixando o filme mais ‘hypado’ ainda…

    Abs.

    • Realmente… to aprendendo a não me empolgar com um filme antes de de fato assisti-lo. E tb não to confiando muito em tanto HYPE por aí. O ideal seria ver um filme antes de ler críticas a respeito, certeza que a opinião geral mudaria muito.
      Abs!

  5. E aí Bruno… tudo beleza???
    Faz muito tempo que eu não aparço por aqui!! Acho que tu nem se lembra mais quem eu sou!!! rsrs Tava dando uma olhada lá no Notas e vi que tu tinha escrito sobre A Origem!!! Tive que dar uma conferida!!!!

    Compartilho algumas opiniões em comum, mas daria nota 9,5…. 7 é muito pouco!!! Não achei o filme muito complexo, mas merece seu reconhecimento, porque é muito bem construído. As cenas de ação atrapalharam sim, Nolan podia ter tirado um pouco disso e ter colocado mais conteúdo nos personagens, pq nenhum deles cria empatia com o público (exceto DiCaprio)!

    Uma curiosidade sobre a trilha do Zimmer, é que o tema de A Origem é a música da Edith Piaf (que sempre toca no filme) devagar (tipo em câmera lenta) ! Tem um vídeo no YouTube!! Coisa de gênio!!!

    Acho que é A Origem é sim um excelente filme! E que é tbm uma PEQUENA obra-prima!!! Ênfase no PEQUENA!!!!

    • Claro que lembro cara! Aliás, pq vc não volta a escrever???

      Qto ao seu comentário sobre o filme, acredito que temos opiniões semelhentes, a diferença é que os pontos positivos te agradaram muito mais do que agradaram a mim, e os pontos negativos foi ao contrário, por isso o 7!

      Abração.

  6. Bruno, depois de ler seu comentário muito bem estruturado, me sinto mais preparada para ver o filme. As duas pessoas de minha geração que assistiram no cinema, detestaram.

    Minhas filhas gostaram bastante. Tua posição comedida me leva a deixar para ver “A Origem” em DVD, já que sou mais exigente com os filmes que assisto no cinema. Você acha que é desses filmes que perdem muito se não forem vistos e ouvidos na sala escura?

    • Oi Stella!!

      Um amigo meu insistiu para que eu visse no cinema, mas eu sinceramente não vejo muita diferença. Não é algo tipo Avatar, que realmente vale a pena ver no IMAX, por exemplo.

      Acho que o povo se empolgou demais com A Origem!

      Quero saber a tua opinião!

  7. Também achei uma “obra-prima”, nem é tanto um filme, é mais uma diversão, um quebra-cabeça (complexo na medida certa, evitando abstratismos exagerados), quase um jogo. É original e sofisticado por isso merece ser conferido. Nolan está por cima, mas ainda não virou pop. Que bom!

    • Não tiro a sua razão…
      Temos que valorizar a ousadia e ambição do Nolan. Ele merece ser reconhecido como um dos grandes diretores do cinema atual, mas meu preferido dele continua sendo Memento.

  8. Realmente o Nolan exigiu de seus espectadores um poder de raciocínio maior, fugindo do cinemão pipoca nesse último longa. A Origem é avassalador do princípio ao fim. Se não é melhor do que Cavaleiro das Trevas 9que, cá entre nós, acho difícil ele ultrapassar aquele nível), por outro lado subverte o cinema a condição de (quase) terapia, o que – diga-se de passagem – não é nada fácil de se realizar.

    • Só pelo fato do Nolan exigir mais do público ele merece aplausos, mas acredito que o filme perde demais quando resolve não explorar as possibilidades de um sonho e quando deixa de investir tempo na parte cerebral da história pra se dedicar as cenas de ação não muito empolgantes!

      abraços.

  9. Pingback: Indicados ao Oscar 2011 (ranking) | Cultura intratecal

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