Crítica: O Terceiro Homem (1949)

the-third-man-1949-Quando me flagro pensando na experiência de assistir a O Terceiro Homem uma palavra me vem a cabeça: perfeição. Creio não estar exagerando ao afirmar que o diretor Carol Reed criou aqui a obra máxima do film noir e um dos grandes filmes do cinema em geral.

Sabe quando todos os aspectos de um filme funcionam de maneira exemplar? Bem, é isso o que acontece aqui. Talvez o que mais chame a atenção em um primeiro momento seja a inusitada trilha sonora de Anton Kara, mas a fotografia em preto e branco de Robert Krasker e as atuações do elenco principal também são inesquecíveis.   

O enredo nos mostra o escritor de westerns Holly Martins chegando em uma Viena que ainda sofre as consequências da segunda guerra. Ele faz essa viagem a convite do amigo Harry Lime que, para sua surpresa, acaba de morrer em um acidente. A morte de Harry está coberta de mistérios e Holly inicia uma investigação. 

O Terceiro Homem é um thriller que jamais perde o ritmo. A história é simples e direta, mas extremamente instigante. Não dá para não falar do espetáculo visual, com o uso de enquadramentos criativos, ângulos oblíquos e uma iluminação das mais expressionistas. Tudo isso embalado por uma trilha sonora que marca os pontos importantes do filme e nos transmite as mais diversas sensações. 

Algumas sequências se tornaram antológicas, como o diálogo do personagem de Orson Welles em uma roda-gigante, a perseguição cheia de adrenalina nos esgotos da cidade e a primorosa cena final. 

Sou fã de Pacto de Sangue e gosto bastante de Relíquia Macabra, mas se eu fosse escolher apenas um film do gênero noir… seria este! Uma verdadeira aula de cinema. Arte e entretenimento combinados de maneira irresistível. 
10/10

Crítica: Amantes Eternos (2013)

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Amantes Eternos é um tipo diferente de filme de vampiro. Aqui não há espaço para romance meloso no estilo Crepúsculo e também temos poucas cenas de terror e suspense. Trata-se de uma experiência um tanto melancólica, que explora os infortúnios da vida eterna de maneira contundente.

Claro, não se pode negar os benefícios de viver ao longo dos séculos: ler quantos livros quiser, ver o maior número possível de espetáculos e viver um amor verdadeiro para todo o sempre. Mas há algo de errado em uma existência que não seja finita. 

Por mais que Adam tenha vivido intensamente na companhia de Eve, ele tem dificuldades de levantar da cama, parece sempre cansado, com humor deprimido e começando a cogitar o suicídio, sintomas característicos da depressão. 

O enredo foge de qualquer tipo de fórmula. É mais uma experiência que deve ser aproveitada intensamente, tal qual os vampiros fazem quando sorvem o saboroso sangue tipo O negativo. 

Falando em vampiros, a verdadeira essência dos personagens é revelada aos poucos. Eu não sabia que estava diante de um filme do gênero, portanto foi intrigante acompanhar as pistas sobre a real identidade deles, como a preferência pela escuridão, os aparelhos antigos e a compra de sangue no hospital.

Outro ponto interessante são as críticas feitas a sociedade e aos seres humanos em geral. Os vampiros nos chamam de zumbis, acredito que pelo fato de que às vezes fazemos as coisas no piloto automático, sem desfrutar daquilo que temos diante de nós. Percebam como Eve e Adam sentem a beleza das coisas, tanto da natureza como de uma bela performance musical. São coisas que a longa experiência de vida ensina, não é mesmo?

Há ainda espaço para o humor negro, ainda que em pequenas doses. Nesse sentido, o destaque vai para uma cena em que um vampiro lamenta o fato de que hoje em dia não se pode jogar um cadáver no meio do rio, como era feito antigamente com os tuberculosos. 

Amantes Eternos exige um pouco de paciência. É um filme mais contemplativo, mas que, se você permitir, te absorve e te hipnotiza com uma fotografia com cores frias que possibilitam inúmeras sensações, inclusive medo, afinal vampiros podem ser imprevisíveis, mesmo os mais “civilizados”.
8/10

 

Hoosiers (Momentos Decisivos, 1986)

hoosiers-1986De tanto ler comentários positivos sobre Hoosiers em críticas de outros filmes esportivos minhas expectativas estavam bem altas quando apertei o play e iniciei essa experiência. Mesmo com vários clichês do gênero, nota-se que eles são trabalhados da melhor maneira possível, nos entretendo, emocionando e inspirando na mesma medida. Agora entendo perfeitamente as comparações e os inúmeros elogios.

Em uma pacata cidade do interior do Indiana, o time de basquete da escola local é a grande (ou a única) atração. Norman Dale é o novo técnico que terá a missão de levar esse desacreditado time a conquistar algo relevante. No primeiro treino, Norman se depara com apenas 7 jogadores e uma enorme pressão dos moradores da cidade, que não hesitam em deixar claro que eles é que sabem o que é o melhor para a equipe. Ele precisa mostrar autoridade e rápido. Com um estilo de treinar diferente, aos poucos ele ganha a confiança de alguns, mas qualquer deslize pode significar sua demissão.

Hoosiers aborda diversos temas que o gênero possibilita: um técnico buscando redenção, um time azarão e dedicado, um jogador talentoso que quer desistir da promissora carreira e um profundo conhecedor do esporte que tornou-se um alcoólatra.

Nada de muito criativo, mas tudo muito honesto e emocionante. Temos aqui exemplos contundentes de como o esporte é capaz de unir as pessoas, tanto no sentido do companheirismo entre os jogadores, como nas relações deles com os familiares.

Hosiers ainda oferece uma detalhada recriação de época (a história se passa nos anos 1950) e cenas empolgantes das partidas, com direito a câmera lenta e situações dramáticas. E destaque também para Gene Hackman, em uma brilhante atuação.
8/10

 

Relíquia Macabra (1941)

reliquia-macabra-1941 Dirigido por John Huston e estrelado por Humphrey Bogart, Relíquia Macabra é considerado pelos cinéfilos como um dos melhores exemplares do cinema noir, não sem motivos. As marcantes características do estilo se fazem presentes ao longo de todos os 100 minutos da trama, como a hipnótica fotografia em preto e branco, os enquadramentos diferenciados, a presença de uma femme fatale irresistível e um enredo que gira em torno da busca por algo inalcançável. Os diálogos são rápidos, o ritmo é dinâmico e nossa atenção se faz essencial para não nos perdemos nas diversas reviravoltas do enredo. Humphrey Bogart merece destaque por dar vida a um detetive particular cheio de atitude. Daqueles clássicos atemporais que merecem repetidas sessões.
8/10

Crítica: Planeta dos Macacos: O Confronto (2014)

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Avançando 10 anos no tempo após o início do caos visto no filme anterior, Planeta dos Macacos: O Confronto nos apresenta a um futuro pós-apocalíptico em que a maior parte da população humana foi dizimada pela chamada gripe símia. Melhor sorte tiveram os macacos, que evoluíram muito e criaram uma sociedade organizada vivendo em uma aparente paz.

As primeiras sequências basicamente não possuem diálogos. Os macacos se comunicam por sinais e também por expressões faciais. Rapidamente observamos como a técnica do motion capture alcançou o nível de excelência. São os detalhes que fazem a diferença, como o olhar penetrante dos personagens, os pelos, as lágrimas, o jeito de caminhar e assim por diante. A ambientação é outro destaque. O diretor Matt Reeves nos coloca dentro daquele mundo de tal forma que sentimos as aflições e as alegrias dos macacos. Nos envolvemos de fato com a história, com César e o filho dele, com Malcom e até mesmo Koba. É claro que os atores tem grande responsabilidade nisso, principalmente Andy Serkis em outra performance monstruosa. Um dia ele receberá todos os prêmios que merece!

Os macacos viviam tranquilamente na floresta Muir até receberem a visita dos humanos, que buscam utilizar a represa do local para gerar a energia que tanto faz falta. Existe uma chance dessas diferentes espécie entrarem em um acordo em que ambos se beneficiem? A verdade é que quem é essencialmente ruim, praticará o mal, não importa a espécie. O interessante é que o roteiro se preocupa em justificar as atitudes de vários personagens, adicionando profundidade a trama. Vejam Koba, por exemplo. Torturado física e mentalmente por homens, não há como não compreender o ódio que ele sente. Trata-se de um ser trágico e fascinante. A relação dele com César é outro ponto alto do filme!

Além de possibilitar inúmeras reflexões de cunho social e de investir em momentos intimistas com sabedoria, Planeta dos Macacos: O Confronto esbanja qualidade nas cenas de ação. Com enquadramentos ousados, ritmo dinâmico (mas não frenético) e uma certa imprevisibilidade, o diretor Matt Reeves confirma o seu talento para o gênero, algo que já vimos em Cloverfield. É difícil negar a força deste segundo capitulo da trilogia. Não é sempre que temos a oportunidade de assistir a um blockbuster que foge tão bem do lugar-comum.

Algo me diz que erraram feio no título nacional, para variar. Tivemos batalhas sim, mas o verdadeiro confronto entre macacos e homens será visto no fechamento da trilogia. Estou ansioso desde já!
9/10