Crítica: A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967)

a-bela-da-tarde

Quando investimos no nosso impulso cinéfilo de ir atrás de filmes relevantes para a História do cinema não é incomum nos depararmos a seguinte situação: assistirmos a um clássico consagrado e simplesmente não gostarmos de quase nada. É o meu caso com A Bela da Tarde, uma das obras mais famosas do cineasta espanhol Luis Buñuel. Esta foi a minha segunda vez diante deste filme. Confesso que tive uma experiência um pouco melhor do que a anterior, porém foi insuficiente para me tornar um admirador.

A Bela da Tarde mostra a história de Severine, uma mulher bem casada e sem problemas financeiros, que é incapaz de sentir qualquer tipo de prazer diante do marido. Eles até dormem em camas separadas! O fato é que ele é bonzinho demais para despertar o tesão nela. O que ela quer é receber ordens, ser tratada de maneira rude, apanhar, ser xingada, ser sujada de lama e assim por diante. Tais desejos ficam evidenciados por cenas que revelam suas fantasias e também pela sua decisão de ‘trabalhar’ em um bordel parisiense como mulher da vida.

A trama pode ser superficial, mas consegue proporcionar reflexões interessantes acerca das atitudes de Severine e da sociedade como um todo. Trata-se de um distúrbio psicológico grave ou apenas uma fuga do tédio? Difícil dizer. Apesar do tema abordado, não espere por cenas gráficas de sexo, mas sim por boas doses de erotismo. Não dá para negar o apelo sexual da bela Catherine Deneuve. não é mesmo?

O filme marcou época e tornou-se admirado por grandes nomes do cinema, como Martin Scorsese e da crítica, como Roger Ebert, além de levar o Leão de Ouro de Veneza em 1967.

Crítica: Tudo Pelo Poder (2011)

the-ides-of-marchGostar de política não é pré-requisito para admirar este espetacular Tudo Pelo Poder. O filme mostra o jogo político por trás das eleições primárias que definirão o representante democrata para as eleições presidenciais americanas. Espere por atos pouco éticos, reviravoltas, surpresas e tensão. Uma autêntica atmosfera de thriller é empregada pelo diretor. Cada manchete de jornal pode ser responsável por uma grande mudança no rumo das votações, seja a tal manchete verdadeira ou não. Além do sempre intrigante roteiro, o destaque aqui fica para as atuações. Só tem gente boa! George Clooney, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman e Ryan Gosling conseguem nos deixar totalmente envolvidos com a trama, que passa voando. Se você gosta de House Cards, é mais do que certo que irá ter uma bela experiência com Tudo Pelo Poder.

5

Crítica: Bonnie e Clyde (1967)

BONNIE AND CLYDEBonnie e Clyde foi um dos filmes mais ousados e influentes do cinema americano. Estrelado pela dupla Warren Beatty e Faye Dunaway, a trama mostra um jovem casal que decide entrar no mundo do crime, principalmente assaltando bancos. Dinheiro fácil, adrenalina e a busca pela fama são alguns dos motivos que explicam esse perigoso estilo de vida. Aliás, essa questão da fama é ressaltada diversas vezes, como na preocupação com a aparência na hora de tirar fotos ou na euforia de ser citado nos jornais.

Ritmo ágil, cenas de ação empolgantes, violência nua e crua e um final esteticamente belo e brutal fazem de Bonnie e Clyde uma experiência inesquecível. Confesso que em alguns momentos me irritei com a personagem Blanche e não consigo entender como a atriz Estelle Parsons levou o Oscar por este trabalho em 1968, afinal tudo o que ela faz é gritar e sair correndo como uma maluca. Um probleminha sem importância quando analisamos o todo. Grande clássico!

5

Crítica: Vidas Secas (1963)

vidas-secas-1963

Mesmo quando eu gosto bastante de um livro, sempre assisto sua adaptação cinematográfica de mente aberta, cogitando a possibilidade do filme superá-lo. Convenhamos, isso é algo que dificilmente acontece. Alguns exemplos desse fato raro? Lolita (de Kubrick), Ilha do Medo (Scorsese) e Perfume: A História de um Assassino (Tom Tykwer). Não foi o caso de Vidas Secas, adaptação do seminal livro escrito por Graciliano Ramos, mas o diretor Nelson Pereira dos Santos realizou um ótimo trabalho, capturando bem a atmosfera do original e nos brindando com emoções quase tão intensas como aquelas que experimentamos no livro.

Mas falemos do filme.

Vidas Secas é um retrato poderoso de uma família que transita pelo sertão nordestino buscando dias melhores. Cada membro da família enfrenta seus próprios desafios, além do grande desafio vivido por todos: sobreviver a miséria.

Sentimos o calor, sentimos a angústia e sentimos o desespero cada vez maior. Fabiano não recebe o dinheiro que merece pelo trabalho que realiza, desperdiça no jogo e na bebida. Sinhá Vitória compara sua situação com o inferno. Os garotos sofrem com o cansaço e com a infância praticamente roubada. Baleia, a cachorrinha mais famosa da literatura brasileira, desbrava o sertão com energia e alegria caçando suas presas e oferece seu carisma para quem quiser recebê-lo.

Não há muito espaço para humor ou leveza. Trata-se de uma experiência difícil, mas inesquecível. A sequência final é reveladora: a família mais parece um grão de areia engolido pela imensidão do sertão. Será que os tais dias melhores virão?

298

Crítica: Dr. Fantástico (1964)

dr-fantastico-1964

Dr. Strangelove é um dos filmes mais engraçados que já assisti. Os diálogos são cheios de ironia e presença de espírito e as atuações muito eficientes. George C. Scott, Sterling Hayden e, principalmente, Peter Selles (que interpreta três personagens diferentes) estão ótimos em cada cena em que aparecem. O tema é a guerra-fria. A loucura que atinge um oficial pode levar a um desastre nuclear de proporções mundiais. Ver o general Jack Ripper falando sobre como os russos estão estragando os preciosos fluidos corporais dos americanos com água fluoretada é hilário. É uma sátira política que sobreviveu ao tempo. Kubrick brincou com o medo da época de maneira ousada. Como esquecer a cena em que o piloto de avião monta uma bomba atômica lançada do avião ou as improvisações extremamente divertidas de Peter Selles? Uma obra-prima.

5

Crítica: Memórias do Subdesenvolvimento (1968)

memorias-do-subdesenvolvimento-1968

Com um ínfimo conhecimento sobre o cinema cubano fui assistir a Memórias do Subdesenvolvimento, um dos filmes mais elogiados já produzidos naquele país.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o estilo bem peculiar que o diretor Tomás Gutiérrez Alea utilizou para contar essa história, misturando ficção e realidade. Tudo se passa na Havana do começo da década de 1960, logo após a revolução socialista e o embargo americano a Cuba. O personagem principal é Sergio, um intelectual alienado por opção. Os familiares dele abandonam o país para tentar uma vida melhor nos Estados Unidos, já Sergio decide ficar e encarar as mudanças sociais da maneira que lhe compete: tecendo críticas a falta de bons produtos nas lojas, observando que o povo está cada vez mais ignorante e buscando diversão no álcool e nas mulheres.

Como podemos ver, Sergio quer viver a vida sem se preocupar.

Memórias do Subdesenvolvimento tem um estética ao mesmo tempo caótica e fascinante. Trata-se de um trabalho um tanto experimental. A opção por mostrar depoimentos de personagens históricos, recortes de jornais e gravações de rádio colabora para que o público consiga imaginar como era viver naquele momento. Demorei um tempinho para me adaptar ao filme, mas quando isso aconteceu passei a aproveitar cada vez mais. Ousado e provocativo, merece ser visto por quem gosta de História e de cinema

298

Crítica: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-1964

Com apenas 23 anos de idade Gláuber Rocha dirigiu Deus e o Diabo na Terra do Sol, um dos filmes mais importantes do cinema nacional. Esteticamente belo e tematicamente relevante, trata-se de um trabalho responsável pela mudança de paradigmas.

O baiano Gláuber Rocha utilizou inúmeras influências cinematográficas e literárias para criar esta obra. Não é difícil perceber aspectos que remetem a Buñuel, Eisenstein, Godard e até a John Ford e seus westerns. Quanto a literatura, temos aqui cenas que parecem ter sido retiradas dos livros de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, o que só pode ser bom negócio.

Durante quase 2 horas de filme, acompanhamos a sofrida saga de uma família pelo sertão nordestino. Após cometer assassinato, Manuel vira um fugitivo e torna-se mais um seguidor do religioso Sebastião, um tipo de Antonio Conselheiro e depois entra para o cangaço junto com Corisco, ex-parceiro de Lampião. A pobreza e a pouca esperança de dias melhores são retratadas de maneira contundente. Violência, misticismo e sacrifícios também não faltam.

Deus e o Diabo na Terra do Sol é um filme forte, impactante e igualmente belo e angustiante de se assistir. Além do aspecto técnico, das influências e das atuações, é de se admirar o seu teor político, algo inevitável em um Brasil que estava prestes a sofrer o golpe militar de 1964.

5