Crítica | Projeto Flórida (2017)

Moonee é uma garotinha de 6 anos que vive em um lugar chamado Florida Project. Este é um arremedo de hotel pouco confortável e barato que fica a uma curta distância do mundo mágico da Disney. Para Moonee e sua mãe o sonho americano não poderia estar mais distante. O filme nos mostra a difícil realidade de uma mãe solteira tendo que matar um leão por dia para dar de comer a filha e para garantir um teto sob suas cabeças.

A trama é das mais simples possíveis, a ideia é mesmo fazer um retrato de quem vive na linha da pobreza. Não dá para negar o empenho dessa mãe para garantir a sobrevivência de Moonee, o problema é que em todo o resto ela é uma péssima mãe. Trata-se de uma mulher jovem totalmente irresponsável, uma bomba relógio que tem dificuldade para conviver pacificamente em sociedade, dando exemplos diários para a filha de como não se comportar. E a garota aprende. Moonee e seus amigos passam o dia infernizando tudo e todos em sua volta. Sabe crianças que não tem limites? São essas que vemos em Projeto Florida. Elas aprontam coisas de deixar qualquer um maluco, mas a mãe de Moonee parece não se importar muito.

O diretor Sean Baker deixa a história transcorrer com uma naturalidade que beira o documental. É fácil perceber que ele não faz julgamentos, apenas quer mostrar a situação complicada enfrentada pelas personagens principais. No final das contas, é praticamente impossível não sentir uma forte conexão com a garotinha Moonee. As lágrimas vão vir naturalmente com o desfecho pesado. A grande atuação de Willem Dafoe foi lembrada no Oscar, mas o filme merecia bem mais indicações.

Nota: 8

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Os Melhores Filmes de 2017

Atrasadão, hein?

Você já deve ter visto quase todos esses filmes, mas se não viu, recomendo. Foram 10 filmes que me agradaram e ficaram na minha cabeça ao longo do ano. Sabemos quando a experiência é boa quando ela permanece por algum tempo com a gente. Até pensei em fazer algumas menções honrosas, mas achei desnecessário.

Vou elaborar uma frase sobre o que cada filme representa, pelo menos para mim.

10 Até o Último Homem

Impressionantes cenas de batalha e um personagem bem desenvolvido. É possível ir às lágrimas em alguns momentos.

9 Eu, Daniel Blake

A difícil luta de um homem comum contra um sistema opressor.

8 La La Land

A magia dos musicais preservada.

7 Paterson

Em todo lugar pode se encontrar poesia.

6 Logan

Logan mostra que é possível criar uma história de super herói envolvente e com boa carga dramática.

5 Dunkirk

Mesmo sem qualquer desenvolvimento de personagens, Dunkirk será lembrado eternamente por nos colocar dentro de uma batalha importante da Segunda Guerra.

4 A Qualquer Custo

Um western moderno com personagens bem trabalhados e um desfecho imprevisível.

3 Okja

A mensagem contra o consumo de carne é evidente, mas Ojka é muito mais do que isso. É um filme que diverte, faz pensar e emociona.

2 Moonlight

Moonlight é o filme certo na hora certa. Três atores diferentes dão vida a Chiron, o garoto negro cujas experiências de vida tem muito a nos dizer.

1 Terra Selvagem

Roteiro, atuações e direção acima da média nos entregam um trabalho brutal e inesquecível.

Crítica | Blade Runner 2049

Blade Runner (1982) é um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos. Sua fama é mundial e eterna. Fazia tempo que uma continuação estava nos planos, mas só agora em 2017 que ela saiu do papel. A difícil tarefa de manter a qualidade do original coube ao talentoso diretor Dennis Villeneuve. Em termos visuais, arrisco dizer que ele superou o trabalho de Ridley Scott. Contando com a colaboração do grande Roger Deakins, Villeneuve nos oferece uma fotografia de beleza única. A longa duração permite que contemplemos com calma suas imagens que são pura arte. Só que um filme precisa ser mais do que isso. Não me senti entediado em nenhum momento graças ao apuro técnico, mas é fato que ele não precisava ter 2 horas e 45 minutos. A história é direta e simples demais para isso. Blade Runner 2049 não permite uma aproximação maior com o seu personagem principal e sua jornada. O filme é frio, sem carga emocional alguma e quase vazio. Uma enorme oportunidade que foi desperdiçada.

Nota: 6

Crítica | Bom Comportamento (2017)

Bom Comportamento é um coquetel explosivo do que o cinema do gênero pode oferecer. Com atuação compenetrada de Robert Pattison, uma trilha sonora enérgica e uma câmera sempre atenta dos irmãos Safdie, o filme se revela uma experiência intensa e surpreendente. A premissa não é exatamente original, mas a a abordagem foge do lugar comum. As escolhas do roteiro e dos diretores podem soar estranhas em um primeiro momento, porém elas fazem sentido neste redemoinho caótico de prazer cinéfilo. Basicamente, acompanhamos Connie Nikas tentando arranjar 10 mi dólares para soltar o irmão que foi preso em uma tentativa fracassada de roubo a banco. Apesar de possuir presença de espírito, Connie não é um gênio do crime. Testemunhar seus acertos e erros em uma madrugada insana é de tirar fôlego. Há ainda espaço para uma rápida crítica social aqui. Nem precisava. Bom Comportamento é daqueles filmes diferentes que precisam de um tempo para entrarmos no ritmo. E quando isso acontece, nossa imersão é total.

Nota: 8.5

Crítica | Fome de Poder (2016)

Quem diria que um filme sobre a História do McDonald’s poderia se revelar tão cativante? Em poucos minutos me vi totalmente investido na trama de Fome de Poder. Confesso que nunca havia me interessado em saber como surgiu esse verdadeiro império gastronômico e agora dificilmente verei a marca com os mesmos olhos de antes. Ray Kroc foi o cara que foi atrás de um pequeno restaurante de sucesso no oeste americano e o fez alçar voos inimagináveis. Os irmãos McDonald’s tiveram a grande ideia de aliar qualidade e velocidade, mas foi Ray Kroc quem difundiu a marca. Só que ele fez isso da pior maneira possível. Sua determinação não considerava a moralidade e ele simplesmente passou por cima dos irmãos. Fome de Poder conta essa história de um jeito envolvente, mas comete um erro grave ao tentar minimizar as atitudes predatórias de Kroc. O carisma de Keaton e o passado difícil do personagem conseguem nos fazer torcer por ele até um certo momento. E aí, quando temos noção da gigantesca passada de perna que ele deu nos irmãos, é praticamente impossível não condená-lo.  Essa é outra grata surpresa dos cinemas em 2017 e já está disponível na Netflix.

Nota: 7,5

Crítica | Alien: Covenant (2017)

Minhas expectativas eram baixas quando comecei a assistir a Alien: Covenant. Fiquei realmente surpreso ao constatar que o filme é uma competente sci-fi, apesar da irregularidade. Há uma tentativa não muito eficiente de adicionar um subtexto filosófico para a trama, principalmente nas cenas iniciais. As coisas ficam interessantes quando a nave Covenant e sua tripulação desembarcam em um planeta com potencial para se tornar uma futura colônia. É claro que logo tudo começa a dar errado. Sequências de tensão bem trabalhadas estão espalhadas por todo o filme, assim como cenas dignas de um horror slasher. O sangue aqui jorra vistoso para todos os lados. A aflição é garantida. Visualmente, Alien: Covenant é acima da média. Pena que há um excesso de personagens tomando atitudes idiotas e encontrando o seu fim. Não há muita preocupação em desenvolver os personagens e as atuações também não colaboram para criar empatia com o público. Não se trata de um filme que será lembrado no futuro, mas ele tem mais acertos do que erros. No final das contas, Alien: Covenant faz a ponte entre Prometheus e Alien com razoável qualidade.

Nota: 7

Crítica: Sobre Meninos e Lobos (2003)

Se existe um diretor em atividade que eu admiro muito é Clint Eastwood. Dono de uma vasta carreira, ele foi responsável por filmes memoráveis nos quais a trama e as atuações se destacam de maneira brilhante. É o caso deste perturbador e inesquecível Sobre Meninos e Lobos. O filme tem início com três garotos se divertindo em um subúrbio de Boston até que um deles é sequestrado por quatro dias por homens que se diziam policiais. Fica subentendido que Dave foi violentado por eles, algo que obviamente mudou todo o seu destino. A história avança vários anos e encontramos os três na idade adulta. Uma tragédia envolvendo a família de Jimmy faz com que os três voltem a se reencontrar, claro que em circunstâncias inesperadas. Prefiro não revelar mais detalhes da trama para que a experiência não perca impacto. Sobre Meninos e Lobos possui um roteiro construído com inteligência. As investigações vão revelando cada vez mais surpresas ao mesmo tempo em que os personagens ganham em desenvolvimento. Sean Penn, Tim Robbins e Kevin Bacon entregam performances magistrais, principalmente os dois primeiros. Eastwood nos faz passar aqui por mais de duas horas de angústia e tensão. A melancolia e a desesperança parecem permear cada instante de Sobre Meninos e Lobos, culminando com um final que faz jus a tudo o que vimos antes. Provavelmente, se o filme acabasse uns 5 minutos antes a minha nota seria 10.

Nota: 9

Crítica: A Caça (2012)

Idealizador do movimento cinematográfico Dogma 95 juntamente com Lars Von Trier, o diretor Thomas Vinterberg possivelmente realizou o seu melhor trabalho até o momento com este A Caça. Celebrado em Cannes e reconhecido pela crítica internacional, o filme é mesmo acima da média.

Lucas é um professor do jardim de infância que se dá bem com todos a sua volta. Fica claro que trata-se de um homem confiável e de bom caráter. A vida dele muda totalmente quando é falsamente acusado pela garotinha Klara de abuso sexual.

É claro que criança não mente, não é? Pelo menos é isso o que pensa essa pequena comunidade dinamarquesa. É irritante o fato de todos acreditarem nela. E o pior, quando ela desmente, as pessoas insistem em dizer que ela está com medo. O roteiro acaba cometendo algumas falhas nesse sentido. É uma acusação muito grave e nem de longe vemos uma investigação apropriada. Mas essa é a premissa que faz o filme andar. E ele fica cada vez melhor. A vida de Lucas se torna um constante pesadelo. A população toma por verdade a acusação e passa a persegui-lo. Uma ida ao mercado pode se tornar uma experiência das mais perigosas. Assim como Lucas, não conseguimos pensar em uma saída para tudo isso.

A trama de A Caça é trabalhada com maestria. E o peso dramático é enorme graças ao ator Mads Mikkelsen. Nossa conexão com Lucas, seu filho e sua cachorrinha é total. Temos um misto de sentimentos ao acompanhar as dificuldades enfrentadas por eles. Poucos atores conseguem transmitir tanta coisa como Mads Mikkelsen. A presença dele impressiona.

O desfecho destoa um pouco do que vimos antes, mas nada que atrapalhe realmente. A Caça é um filme intenso e muitas vezes imprevisível. O cinema dinamarquês se revela cada vez mais promissor. Vamos ficar de olho.

Nota: 9

A Caça (Jagten)
Ano: 2012
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp
Info: IMDb

Crítica: Vida (2017)

Inspirado em melhores filmes do gênero, Vida é uma grata surpresa dos cinemas em 2017. Mistura de ficção-científica e terror, o filme mostra uma equipe de astronautas fazendo contato com um ser de outro planeta. Carinhosamente chamado de Calvin, o ser se revela um caçador sanguinário. Como sobreviver a sua força e inteligência no espaço? Várias sequências de Vida nos dão a certeza de que o diretor se preocupou com detalhes técnicos, facilitando nossa imersão na trama. A tensão também é algo bem trabalhado, mas não em um nível tão elevado como podemos ver no primeiro Alien, por exemplo. Faltou tempo para um melhor desenvolvimento dos personagens, ainda que o elenco sólido tenha feito o possível. Infelizmente, o desfecho é uma forçada de barra tremenda e prejudica a experiência. Digo que Vida é uma surpresa pois eu tinha certeza que isso aqui seria uma bomba. Me enganei.

Nota: 7

Festival BUE

Não foi das tarefas mais fáceis ir até Buenos Aires conferir de perto o Festival Bue.

Fomos até lá para ver o Arcade Fire, mas também para conferir a excelente banda argentina chamada El Mato a un Policia Motorizado.

Mas faltou pouco para não perdermos o festival.

No dia anterior ao show a CGT (confederación general del trabajo) ameaçou uma greve geral para o dia 15/12, justamente o primeiro dia do festival e o dia que voaríamos até a Argentina. E lá quando tem greve geral tudo para, inclusive os aeroportos.

Para nossa sorte, a greve acabou acontecendo apenas no dia 18.

A jornada começou com uma chuva torrencial em Curitiba que atrasou o nosso voo. Ainda bem que foi um atraso pequeno. Para esse dia, não dava para ir direto para Argentina. Então fomos para Guarulhos e de lá para Buenos Aires.

Quando compramos o ingresso não havia a opção de receber em casa por se tratar de outro país. Tivemos que chegar no dia e retirar, mas não dava para tirar no local do festival, apenas nos locais autorizados espalhados por Buenos Aires.

Decidimos ir até o Abasto shopping que era mais caminho e também para podermos comer algo antes de ir até Tecnopolis.

E como Tecnopolis era longe! Fica na região metropolitana.

Até dava para tentar ir de ônibus, mas iria demorar muito mais do que o normal e também tinha o risco de parar em algum ponto errado. Então o esquema foi ir de UBER mesmo. Gastamos o equivalente a 90 reais nessa corrida.

Chegando lá, só alegria.

Deu para entender a dinâmica dos palcos e dos lugares de comer, só demoramos para perceber que havia um lugar específico para comprar e tomar cerveja. Estava muito estranho não ver ninguém tomando cerveja em um show. Mas só fomos uma vez para lá, porque tinha uma fila grande e a cerveja obviamente não estava gelada como deveria.

Paciência.

O que importa é que o show do El Mato a Un Policia Motorizado surpreendeu. Essa é uma banda que faz um som indie de qualidade. Acho que se eles fossem americanos fariam sucesso a nível mundial. O show deles foi no palco fechado e combinou com as músicas, que alternam bem entre momentos mais calmos e agitados. E as letras são fáceis de memorizar e cantar junto. Torço para que eles cresçam cada vez mais.

E o que falar do Arcade Fire? Puta que pariu.

Os caras sabem o que fazem. Eles entregaram um set list basicamente perfeito. Algumas músicas do álbum novo que não me agradaram tanto funcionaram ao vivo. Não dá para ficar parado e não cantar junto com eles. É contagiante demais. Tá certo que algumas letras são meio difíceis, mas pelo menos os refrões a gente acompanha.

Detalhe interessante é que o Win Butler tinha total consciência do momento difícil pelo qual os argentinos estavam passando e mandou umas mensagens de apoio.

Quanto ao público argentino, esperava mais. Sinceramente, até hoje nunca vi uma galera mais empolgada do que aquela que cantou com o The Killers no Lolla BR em 2013 do começo ao fim.

Falando em público argentino, tivemos o azar de ficar atrás de um rapazote pé de valsa que não parava por um segundo. O show era foda, mas tem que ter bom senso! haha

Para voltar de Tecnopolis o meu 3G me deixou na mão e não pude chamar um UBER. Tivemos que apelar para a máfia dos táxis. Parece que os táxis de Buenos Aireis não podem circular por lá em alguns horários e eles desligam o taxímetro e ‘negociam’. Resultado? Gastamos o equivalente a 200 reais em uma corrida que era para ser no máximo uns 120. Era isso ou tentar ir de ônibus como se fosse uma ida de Piraquara para o Cabral de madrugada. Melhor não, né?

E lembram quando eu disse que quase perdemos o show? O primeiro motivo foi a greve que quase aconteceu e o segundo foi o tempo.

No dia seguinte, sábado, caiu uma chuva sinistra em Buenos Aires que fez com que o Festival cancelasse algumas bandas. Por sorte a gente nem ia neste segundo dia.

Imagine viajar até lá e ter o seu show cancelado?

E detalhe, na volta tivemos que acelerar o passo em Guarulhos para não perder o voo para Curitiba.

A experiência foi muito boa, mas acho que foi a última vez que vou para fora do país especificamente para ver um show. São muitas coisas que podem dar errado. E olha que sou organizado quanto a viagens.