Crítica: Kynodontas – Dogtooth (2009)


Não tinha a menor ideia do que se tratava este filme de nome estranho. Fui atrás pelo fato de ter sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Como não havia lido nem um mísero review, demorei um certo tempo para entender o que estava acontecendo na tela. Quando as coisas começaram a clarear, percebi que estava diante de algo doloroso e viciante. É difícil acompanhar os acontecimentos de Kynodontas, mas mais difícil ainda é desviar a atenção.

Nenhum personagem tem nome. Tudo se passa em uma enorme casa com piscina, um grande jardim, afastada da sociedade e totalmente cercada por um muro e vegetações. O pai e a mãe mantém os filhos presos. Não sabemos a idade exata dos filhos, mas deve ser algo entre 15 e 20 e poucos. Um rapaz e duas moças. O mundo inteiro dos filhos se resume a casa, lugar que não deixam nem por um segundo.

Pelo pai são ensinados a latir e lamber como cachorros, além de considerar gatos como os mais terríveis predadores do universo. Para completar a triste situação, às vezes a mãe define palavras de um jeito errado, por exemplo: “zumbi” é uma flor amarela e “estrada” é um vento forte. De vez em quando eles podem ver televisão, mas o únicos programas que assistem são filmes caseiros feitos pelo pai. Contato com o exterior? Só ver aviões passando e receber a visita de uma funcionária do pai, contratada para fazer sexo com o filho. O pai é o único que deixa a casa.

Imagino que Kynodontas signifique “dente canino” em grego, título que faz cada vez mais sentido. O filme pode ser visto como uma sátira da vida familiar. Um pai louco e superprotetor que destrói a vida dos filhos, mesmo que essa não seja a intenção dele.

Vi um cartaz em que a palavra “HILÁRIO” descrevia o filme. Aí não, né? Algumas cenas fazerem rir, como aquela em que o pai traduz a música Fly Me To The Moon de um jeito bizarro e ainda diz para os filhos que quem canta é o vô deles. Também é digno de risadas a sequência que mostra a filha mais velha imitando o personagem de um filme que ela assistiu escondida. Não vou dizer qual o filme para não estragar a surpresa, mas é bem fácil de reconhecer. Agora… hilário? Nunca. Até parece que eu vou chamar a família toda, os amigos, pegar um balde de pipoca e um litro de coca e vou me divertir pra caramba.

Kynodontas é extremamente perturbador. Você assiste e sente pena daquelas pessoas ao mesmo tempo em que tenta entender o que motiva o pai a fazer isso. Queremos uma explicação mastigada para tamanho absurdo, mas temos que nos contentar com o que fica subentendido: ele quer proteger os filhos do mundo perigoso lá de fora.

As situações retratadas aqui causam um desconforto enorme. São cenas bem fortes e intensas.

Alguns podem reclamar do final relativamente abrupto e totalmente em aberto, mas acredito ter sido uma escolha acertada do diretor Giorgos Lanthimos, que controla o filme inteiro com muita qualidade.

É bom quando uma obra corajosa aparece e te tira da zona de conforto. Por ser uma experiência difícil, é daqueles filmes que você não esquece, para o bem ou para o mal.
IMDb

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17 comentários sobre “Crítica: Kynodontas – Dogtooth (2009)

  1. Bruno, que sinopse incrível! Nem sequer sabia do teor e conteúdo deste Dogtooth – e como você, fiquei de procurar por conta da indicação ao Oscar. Mas estou com a forte sensação de que irei gostar! Entrou pra lista de prioridades, já que costumo adorar filmes alegóricos.

  2. Bruno, deixei um selo pra você no meu blog. Motivo? Seu ótimo trabalho aqui no Cultura Intratecal! Dá uma olhada lá, assim que for possível! Abraços!

  3. Gostei bastante do filme, não tanto quanto, mas gostei.

    Justamente pelo o que você diz logo na introdução, ou seja, o fato do filme nos segurar na cadeira para ver o que virá adiante. Escrevi também sobre o longa e a definição foi que “Dente Canino” funciona então como uma alegoria sobre a futilidade do isolacionismo e a desconstrução que isso causa. O grego se mostra mais um na linha de Michael Haneke, Von trier e até mesmo trouxe boas lembranças a Pasolini e, talvez, a sensação de vazio no filme fosse preenchida com a própria marca do diretor que aqui é pouco infusa e superficial. Ao ver filmes como “Violência Gratuita”, “Dogville” e “Saló”, por exemplo, vê-se algumas deficiência, na maioria das vezes subjetiva que o filme tem.

    Abraço!

    1. Verdade!

      O filme tem um ar de dogma 95 mesmo, remete aos filmes do Von Trier, mas não fiz conexão com o Haneke, talvez por não conhecer tanto a obra dele como eu queria!

      Filmaço!

  4. ei, exelente critica. mas queria saber qual foi o filme que a irmã mais velha assistiu e imitou na cena de dança.

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