Game of Thrones: “Lord Snow” Crítca

Game of Thrones | 1×03 – Lord Snow

Transpor o vasto mundo criado por George R. R. Martin para a televisão é uma tarefa árdua. Para atingir esse objetivo com qualidade, existe a necessidade de alguma dose de exposição. É o que vemos em Lord Snow. Diálogos entre personagens importantes revelam acontecimentos do passado e estabelecem a dinâmica entre eles. Graças a grande qualidade dos atores e do roteiro, nem ligamos para a exposição.

Mas é claro que isso faz com que as coisas se tornem um pouco mais lentas. Lentas, mas jamais desinteressantes.

Jon Snow passa por maus bocados em Castle Black. Ele percebe que se tornar um patrulheiro da noite está longe de ser algo glamouroso. Snow é sem dúvida o mais habilidoso dentre os novos recrutas, porém ele terá que parar de se mostrar e tentar ajudar os outros a empunharem a espada com alguma destreza. Tyrion serve como um tipo de confidente para Jon Snow e a relação dos dois se fortalece. Mas quem está longe de estar forte é a própria patrulha da noite. O comandante Mormont revela que a patrulha está basicamente minguando, com um número de membros cada vez menor. O povo do sul parece ter esquecido da importância da muralha e seus defensores.

Relatos sombrios vindos do outro lado da muralha são indicações de que o inverno realmente está chegando.

Em Porto Real Ned Stark se depara com mais problemas, inclusive com uma conversa pouco amistosa com Jaime. Graças a irresponsabilidade de Robert Baratheon, a coroa está devendo milhões. Essa e outras notícias pouco animadoras foram dadas por Lord Varys, Petyr, Grande Meistre Pycelle e Renly Baratheon, o pequeno conselho do rei.

Ned Stark recebe uma Catelyn com sangue nos olhos em busca de quem mandou matar Bran, que agora está acordado, aleijado e com amnésia. Ned também mostra que é um excelente pai ao tranquilizar Arya, permitir que ela mantenha a agulha e ainda por cima contratar um espadachim de renome para treiná-la.

Quem também começa a se encontrar é Daenerys. Ela está tomando ciência de que o irmão Viserys é um ser patético e que há poder em ser khaleesi, ainda mais quando se esta grávida do grande Khal.

Episódios levemente arrastados como esse são inevitáveis para nos mostrar quem é quem, ainda mais em um universo cheio de personagens, lugares e motivações.

Nota: 8

 

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Game of Thrones: “The Kingsroad” Crítica

Game of Thrones | 1×02 – Kingsroad

Já havíamos sido informados de que os lobos gigantes crescem rápido, mas há qualquer coisa de estranha em relação a passagem do tempo nestes dois primeiros episódios. Simplesmente, não temos a sensação de que algumas semanas se passaram desde a queda de Bran. Trata-se de um leve descuido da edição que compromete pouco a qualidade do episódio.

Em Kingsroad as atitudes de certos personagens já evidenciam muito bem suas personalidades. As diferenças entre as irmãs Sansa e Arya são gritantes. Enquanto Sansa sonha com príncipes encantados e com as afazeres das mulheres da corte, Arya quer brandir uma espada e brincar com os seus amigos, inclusive com o simplório filho do açougueiro. Ver Arya brincando com o coitado do Mycah foi a perfeita situação para Joffrey revelar o pirralho mimado e petulante que ele é. Infelizmente, isso custou a vida de Mycah e de Lady, a loba de Sansa.

Ao fazer com que Lady fosse sacrificada, Cersei mostra sua capacidade de controlar as situações da maneira que lhe convém, visando sempre algo maior. Um lobo a menos significa um Stark mais exposto, não é? Pois os lobos gigantes podem ser extremamente protetores, como mostrou Verão, que não hesitou em buscar diretamente a jugular do assassino contratado para dar fim a Bran.

Caetelyn ligou os pontos e chegou a conclusão de que houve uma trama para Bran ser assassinado inicialmente. O difícil vai ser saber o que fazer com essa informação. Ir contra a família real poderá ter sérias consequências.

Falando em consequências, Jon Snow tomou a decisão mais importante da sua vida até o momento. Ele escolheu vestir o preto e fazer parte da patrulha da noite. Muitos o cumprimentam por escolher esse caminho honrado, mas talvez ele tenha refletido sobre onde estaria a honra em servir no meio de assassinos e estupradores. É uma escolha aparentemente sem volta.

Daenarys surpreende o pequeno monstro Khal Drogo dentro de quatro paredes e dá indícios de que pode ser mais forte do que imaginamos. E percebam como os ovos de dragão estão sempre próximos ao fogo.

Como vai ser recorrente no restante do seriado, Tyrion se destaca bastante. Ao desferir três belas bofetadas no aporrinhante Joffrey ele conquista boa parte do público. E ele ganhará ainda mais nossa simpatia com seus diálogos perspicazes.

O título kingsroad vem do caminho percorrido pela comitiva do rei de Winterfell até Porto Real. Uma viagem nada agradável, principalmente para os Stark e para o já saudoso filho do açougueiro. A partir de agora um adjetivo vai poder ser bem empregado para definir Game of Thrones: imprevisível.

Nota: 8.9

Game of Thrones: “Winter is Coming” Crítica

Game of Thrones | 1×01 – Winter is Coming

Com a aproximação da oitava e última temporada de Game of Thrones, achei interessante rever e comentar todos os episódios desta longa jornada. É claro que os textos possuirão uma boa dose de spoilers, afinal pretendo chamar a atenção para detalhes que provavelmente deixamos passar na primeira vez que embarcamos no perigoso e fascinante mundo criado por George R. R. Martin.

Logo na primeira sequência de Winter is Coming, temos uma amostra do rico universo do seriado. A presença de um Caminhante Branco logo de cara é um sinal de que elementos de fantasia farão parte da história. Só que se trata de fantasia para adultos. Tudo vai ser trabalhado com calma e dentro de uma lógica interna difícil de se questionar.

O único sobrevivente do encontro inicial com o Caminhante Branco é julgado por deserção e caberá a Ned Stark executar a sentença. Ned é o lorde de Winterfell e o patriarca da família Stark. É fácil perceber que se trata de um homem honesto, preocupado com a esposa e os filhos e mais preocupado ainda em seguir um código de conduta. Ao contrário da maioria dos nobres, o poder não sobe à cabeça de Ned.

Ned estava vivendo sua vida tranquila no norte, até receber a comitiva de Robert Baratheon, o rei dos sete reinos e um amigo de longa data. Robert chega com um convite difícil de se recusar dadas as circunstâncias. Ele precisa de um novo “Mão” e não tem dúvidas que Ned é o homem certo.

Robert é um rei bonachão, amante do álcool e das mulheres e por tudo isso, não muito difícil de ser manipulado. Mal sabe ele que o perigo está mais perto do que imagina. A rainha Cersei juntamente com o seu irmão/amante Jaime começa a botar as mangas de fora para conquistar algo que sempre quis.

Do outro lado do mar estreito fica Pentos. É lá que se encontram Viserys e Daenerys Targaryen, filhos de Aerys Targaryen, o rei louco. Viserys não está nem aí em usar a irmã para tentar chegar ao poder que considera seu por direito. Ele bota todas as fichas no casamento arranjado da irmã com Khal Drogo, o imprevisível líder dos guerreiros dothraki.

Winter is Coming é uma introdução que cumpre o seu papel com maestria. Apesar da grande quantidade de lugares, famílias e personagens, a trama se desenrola sem pressa, nos permitindo entender quem é quem aos poucos. Não há quase nada de ação aqui, o que é mais um indício de que o seriado se preocupa primeiramente em desenvolver o enredo e os personagens. E claro, há uma cena final impactante que revela o quão maldosos as peças do jogo dos tronos podem ser.

Se você está revendo o episódio provavelmente irá notar algumas antecipações intrigantes, como os ovos de dragão, o fato de Daenerys não sentir o calor da água e os diálogos em que um membro da patrulha da noite diz que a muralha não vai a lugar nenhum e aquele em que Illyrio diz para Viserys que em breve Drogo irá lhe dar uma coroa. Ah. E é aqui que as crianças Stark adotam os lobos que vão se tornar importantes no futuro.

Nota: 8.8

Crítica | The Post – A Guerra Secreta

Ninguém em sã consciência pode duvidar da capacidade de Steven Spielberg de contar boas histórias. The Post é mais um exemplo recente de que o diretor ainda tem lenha para queimar. Apesar da trama se passar nos anos 1970, sua essência é algo que jamais deixará de ser relevante.

Baseado em acontecimentos reais, o filme retrata o emblemático caso dos “papeis do pentágono”, um documento que comprovava que os Estados Unidos não tinham a menor chance de vencerem a Guerra do Vietnã. Esse documento caiu nas mãos do The Washington Post, que enfrentou um verdadeiro dilema antes de publicá-lo. A pressão vinda da Casa Branca era muito forte, inclusive com promessas de um processo judicial que poderia levar os responsáveis pela publicação para a cadeia. É claro que a imprensa muitas vezes é responsável por um desserviço à sociedade ao impulsionar noticias falsas – principalmente nos tempos atuais -, mas aquele caso mostrou como uma matéria certa no momento certo pode colaborar para trazer a verdade a tona.

The Post é um tanto arrastado no seu primeiro ato, mas a medida que as coisas avançam a tensão aumenta. Mesmo sabendo os rumos do roteiro, não há como não se envolver com uma situação tão relevante, ainda mais com um Spielberg inspirado. Meryl Streep e Tom Hanks oferecem boas atuações e o resto do elenco é extremamente sólido, inclusive com atores que se destacaram em seriados recentemente.

Além da questão dos “papeis do pentágono” o outro tema de destaque é a quebra de barreiras por parte de Kay Graham, a primeira mulher a comandar uma empresa que ficou na lista das 500 mais importantes da revista Fortune. Ela possui o único arco do filme, já que aos poucos vai ganhando a confiança necessária para fazer o que acha certo. É justamente em alguns momentos com Kay que Spielberg dá uma exagerada na pieguice, mas o que importa é que ele conseguiu eternizar essa editora americana que foi essencial para a imprensa como um todo.

Junto com Ponte de Espiões, The Post é uma prova de que Steven Spielberg não perdeu a mão. Temos que aceitar o fato de que deslizes como Jogador Número 1 podem acontecer.

Nota: 7

Crítica: “Trench”, Twenty One Pilots

1. Jumpsuit
2. Levitate
3. Morph
4. My Blood
5. Chlorine
6. Smithereens
7. Neon Gravestones
8. The Hype
9. Nico and the Niners
10. Cut My Lip
11. Bandito
12. Pet Cheetah
13. Legend
14. Leave the City

Apesar do estrondoso sucesso de músicas como Stressed Out e Heathens eu nunca havia me interessado muito pelo duo americano Twenty One Pilots. As coisas mudaram após o ambicioso Trench. Com uma produção brilhantemente elaborada e uma primeira parte quase perfeita, o mais recente álbum de Tyler Jospeh e Josh Dun é uma experiência revigorante. O amadurecimento da dupla salta aos olhos. As letras investem na narrativa do mundo fictício de Dema e aí somos brindados com uma história que estimula a discussão de temas relevantes. Há um lado pessoal bastante evidente em boa parte das letras, o que deixa tudo mais rico. Músicas como Morph, My Blood e Chlorine possuem estruturas inspiradas que facilmente nos viciam. A mistura de gêneros que o duo gosta de trabalhar deu muito certo aqui. Elementos do rock, R&B, rap, indie eletrônico e até reggae se unem de maneira coesa, sem exageros. Não sei se todos concordam, mas notei similaridades com bandas como MGMT e Linkin Park. O que sei é que Trench irá fazer parte da lista de melhores do ano de muita gente. Merecidamente.

Nota: 8

 

Crítica | Oeste Sem Lei (2015)

Como um profundo admirador do western é impossível eu não me empolgar com algo como Oeste Sem Lei. Em apenas 84 minutos de duração, o filme consegue nos presentear com uma verdadeira lufada de ar fresco dentro do gênero. Jay Cavendish é um jovem escocês que cruza o oceano atlântico em busca de sua amada. Jay claramente não está preparado para a hostilidade do velho oeste. Ele é um garoto educado e sensível no lugar errado e na época errada. Mas para ele, vale a pena correr todos os riscos para encontrar Rose.

No meio do caminho ele irá contratar Silas para guiá-lo e servir como um guarda-costas. Silas é um experiente cowboy. Ele sabe contornar os perigos e resolver boa parte dos problemas que se colocam diante deles. Há tempo para que uma inevitável amizade entre os dois surja, mas esperem por uma ou outra reviravolta.

Mesmo com uma curta duração, Oeste Sem Lei não se preocupa em apressar as coisas. O diretor John Maclean opta por investir em algumas sequências mais calmas que permitem que o público se encante com o cenário exuberante. Aliás, as filmagens foram feitas na Nova Zelândia e é impressionante constatar que conseguimos nos sentir no oeste americano. A química entre Jay e Silas também é um dos grandes trunfos do filme, com direito a diálogos inspirados e divertidos.

Mas não podemos nos enganar. O oeste não é lugar para qualquer um. Qualquer erro pode significar o fim de uma vida. Naquela época, não se pensava muito antes de apertar o gatilho.

Esta é uma experiência essencial para os amantes do gênero.

Nota: 8

Crítica | Kill Bill: Vol. 1 (2003)


Talvez dividir Kill Bill em duas partes tenha sido uma mera jogada de marketing, mas isso não atrapalhou tanto a experiência como um todo. Ainda que neste primeiro capítulo não exista um final propriamente dito, a jornada de vingança da Noiva traz praticamente tudo o que podemos desejar de um diretor como Quentin Tarantino.

Kill Bill: Vol. 1 mostra que o cérebro de Tarantino é fervilhante caldeirão de referências cinematográficas. Tais referências são usadas com ousadia e criatividade para contar a história de uma mulher que foi traída e deixada para morrer. Agora ela quer apenas se vingar de todos os responsáveis. Ela faz uma lista de cinco nomes e nós vamos acompanhá-la nessa caçada.

Poucos filmes foram tão divertidos de se assistir na década passada. Uma Thuman está bem a vontade como uma verdadeira máquina de matar. A violência empregada nas cenas é extremamente estilizada, portanto dificilmente alguém poderá sentir aflição. Mas que elas impressionam, não restam dúvidas.

Um dos grandes momentos de Kill Bill é quando o filme dá lugar para um anime que explica as origens de uma personagem. Um prato cheio para quem gosta deste nicho da cultura japonesa.

Vale a pena observar também as relações de Kill Bill com Pulp Fiction, como o uso da espada de Samurai e a cidade de Okinawa (lembram do monólogo de Cristopher Walken?).

Com um ritmo ágil e vibrante, o filme jamais deixa de nos divertir. A trilha sonora escolhida a dedo também colabora para nos deixar no clima. Há ainda tempo para uma interessante reviravolta no final. É meio impossível terminar de assistir essa primeira parte e não querer imediatamente ver a sequência.

E isso é mais uma prova de que as coisas funcionaram muito bem aqui.

Nota: 9

Crítica | Tully (2018)

 

Tully é mais uma parceria entre o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody que deu certo. Contando com uma memorável atuação de Charlize Theron, o filme é um retrato nada glamouroso da maternidade.

O inspirado primeiro ato nos diverte com a rotina diária de cuidar de um recém-nascido. É fralda e choro que não acabam mais. E Marlo não poderia estar mais acabada.  Poucos filmes se preocupam em mostrar o lado complicado de se criar um filho. E além do recém-nascido, Marlo tem outro dois filhos, sendo que o garotinho tem algum problema que ainda ninguém conseguiu diagnosticar.

Uma saída para essa verdadeira batalha pode ser contratar uma babá noturna. Sim. Contratar alguém para cuidar do filho enquanto a mãe consegue algumas horas do sono.

Marlo fica relutante em um primeiro momento, mas logo ela chega no seu limite e decide ir atrás da babá.

A partir daí, Tully vai perdendo sua força.

O que era um divertido e sincero comentário sobre a maternidade, torna-se um filme não tão interessante sobre a amizade de duas mulheres com idades diferentes. Apesar de algumas boas sequências e da química entre Charlize Theron e Mackenzie Davis, é fácil notar a superioridade da primeira parte. O que me incomodou mesmo foi a reviravolta no final. Tully não precisava disso para funcionar. Houve um excesso de preciosismo por parte do roteiro, eu diria.

Ainda bem que quando Tully acerta, acerta em cheio.

Nota: 8

Crítica | Legítimo Rei (Outlaw King)

Legítimo Rei pode ser considerado uma sequência de Coração Valente. Se o filme dirigido por Mel Gibson termina com William Wallace torturado e morto, esta produção original Netflix começa com os desdobramentos disso.

Aliás, em dois momentos vemos pedaços do corpo esquartejado de Wallace servindo de exemplo para os escoceses que ainda almejam a liberdade. A sequência inicial também impressiona: uma longa tomada sem cortes com direito a diálogos que explicam a situação atual, um rápido duelo de espada e uma demonstração da força de uma catapulta. São cerca de 9 minutos.

Tudo isso me fez acreditar que estava prestes a ter uma ótima experiência. Ledo engano. Legítimo Rei é um épico que empalidece diante da imensa maioria dos exemplares do gênero. Talvez a comparação mais brutal seja com o próprio Coração Valente.

Em Coração Valente temos cenas de batalha coreografadas com maestria. Somos absorvidos por aquela demonstração de fúria e coragem. Há também uma história de amor envolvente. Infelizmente, não há nada disso aqui.

Não existe um pingo de originalidade na questão das batalhas. A câmera tremida, a fotografia mais escura e o excesso de cortes tiram qualquer tensão que poderíamos sentir. Todo o filme caminha para uma inevitável batalha no fim, mas ela é tão decepcionante que fica difícil de perdoar. E o resultado é mais do que óbvio.

Outro grande problema é o romance de Robert Bruce com Isabel. Todos os clichês possíveis estão aí, inclusive culminando em uma sequência final que beira o patético.

Falando em clichê, tenho que mencionar aquela irritante situação tão comum no cinema em que vemos os vilões exagerando na maldade. Que personagem mais descartável é esse Eduardo, príncipe de Gales?

Robert Bruce é quem faz o papel de herói. Ele é o rei que tentará unir os escoceses em busca da liberdade. Tal história poderia render um filme de alto nível. Não foi o caso.

Pelo menos, a parte técnica é competente em boa parte do tempo. Legítimo Rei é um filme bonito de se olhar, principalmente em tomadas mais abertas e em cenários históricos como Berwick-Upon-Tweed. Mas é só.

Esperava muito mais do diretor David Mackenzie do ótimo A Qualquer Custo. Só posso imaginar que ele não teve a liberdade criativa que precisava para nos oferecer algo decente.

Nossa querida netflix errou mais uma vez.

Nota: 5

Crítica | Breaking Away (1979)

Se você tem interesse por corridas de bicicleta Breaking Away certamente é uma boa opção de filme para assistir. São quatro cenas em menos de 100 minutos em que o destaque é a velocidade de uma bicicleta. A que envolve um treino na estrada e uma perseguição a um caminhão é a que mais me chamou a atenção. O diretor Peter Yates soube conduzir com segurança esses momentos, inclusive utilizando uma trilha marcante. Mas se você não está nem aí para esse esporte, saiba que Breaking Away tem muitos outros aspectos positivos. Dave, Mike, Cyril e Moocher são jovens que acabaram de terminar o ensino médio e não entraram para a universidade. Há um grau elevado de melancolia e fatalismo em algumas de suas conversas, principalmente quando o personagem Dave (Dennis Quaid) está falando. Eles são da cidade de Bloomington e sofrem preconceito dos universitários que vem de fora. O que eles ainda não sabem é que eles tem sim motivos para se orgulharem do que são e do que podem se tornar. Talvez uma disputa de bicicleta seja uma grande oportunidade para eles entenderem isso. Breaking Away é uma experiência divertida, tocante e que reserva boas doses de adrenalina.

Nota: 8

Crítica | Cargo (2017)


Minha empolgação com filmes de zumbi diminuiu nos últimos anos. Talvez o que mais contribuiu para isso foi a queda absurda da qualidade do seriado The Walking Dead.  Ficou tão ruim que eu desisti no começo da oitava temporada e quis dar um tempo no gênero.

Só encarei Cargo pela presença de Martin Freeman e porque o curta-metragem que o filme se baseia é absolutamente tocante.

Infelizmente, a roteirista e o diretor não souberam aproveitar o material original que eles mesmos criaram. Muito longe disso.

Em nenhum momento o filme se preocupa em explicar exatamente o que está acontecendo no mundo. Dá para entender que um possível apocalipse zumbi está acabando com tudo. O casal Andy e Kay acha que uma boa chance para sobreviver está em navegar por um rio e fazer algumas coletas.

As coisas são ainda mais difíceis para eles por causa da bebezinha Rosie.

É uma pena que em Cargo os personagens insistam em tomar as piores decisões possíveis. Vários clichês do gênero se fazem presentes e atualmente acho um tanto difícil perdoá-los. Para piorar, existem certas coincidências e encontros inesperados que prejudicam ainda mais a experiência.

O filme flui de uma maneira estranha, pouco natural. Logo no início Andy é mordido e ele vai ter apenas 48 horas para tentar salvar Rosie antes de se transformar. A jornada dos dois em busca de salvação poderia ser bem diferente se ele usasse um pouquinho do bom senso. Mas aí não haveria conteúdo para 1 hora e 45 minutos de filme, não é mesmo?

Apesar do bom ator que é Martin Freeman, me vi pouco envolvido com a missão dele. Minha torcida era para que o filme acabasse o quanto antes.

Pior do que as escolhas erradas de Andy e Kay, só mesmo a presença dos aborígenes, basicamente uma tentativa falha de se fazer crítica social.

Mas tem algo positivo: a fotografia que explora as exuberantes paisagens do outback Australiano. E só.

Não preciso nem dizer que basta ver o curta-metragem. Cargo é uma adaptação das mais insossas e desnecessárias.

Nota: 4

Crítica | O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017)

O Sacrifício do Cervo Sagrado é o terceiro filme do grego Yorgos Lanthimos que eu assisto e agora me considero fã do diretor.

Mais uma vez ele nos absorve em uma atmosfera inquietante recheada de situações pouco usuais. Desta vez, seu apuro técnico chama a atenção ainda mais, principalmente quando flerta com o estilo de Kubrick.

Mas vamos a trama.

Steven Murphy é um cirurgião cardíaco de renome. Ele mora em uma casa enorme e tem uma família que se dá bem.

Os diálogos proferidos quase que no piloto automático já são um indício da estranheza do filme. As coisas ficam ainda mais estranhas no desenrolar do relacionamento entre Steven e o garoto Martin. Um fato do passado impulsiona essa relação e isso poderá levar a consequências trágicas para Steven e sua família.

Revelar mais sobre o enredo pode ser considerado spoiler e atrapalharia a experiência.

O que pode ajudar a entender o filme e o seu final é a mitologia grega, especificamente a obra Ifigénia em Áulide escrita em 408 a.c. por Eurípedes. Aliás, podemos até considerar O Sacrifício do Cervo Sagrado como uma releitura dessa tragédia grega.

Quando vemos os filmes de Yorgos Lanthimos temos que esperar o inesperado. A maioria das cenas de O Sacrifício do Cervo Sagrado nos deixam angustiados. Ficamos totalmente imersos nessa trama perturbadora. Os longos takes e a trilha sonora muitas vezes incômoda elevam ainda mais a tensão.

É necessário um pouco de paciência para se aproveitar o cinema de Yorgos Lanthimos. Talvez este seja mais um daqueles casos de ame ou odeie. Eu me incluo na primeira opção.

Nota: 9