Crítica | The Post – A Guerra Secreta

Ninguém em sã consciência pode duvidar da capacidade de Steven Spielberg de contar boas histórias. The Post é mais um exemplo recente de que o diretor ainda tem lenha para queimar. Apesar da trama se passar nos anos 1970, sua essência é algo que jamais deixará de ser relevante.

Baseado em acontecimentos reais, o filme retrata o emblemático caso dos “papeis do pentágono”, um documento que comprovava que os Estados Unidos não tinham a menor chance de vencerem a Guerra do Vietnã. Esse documento caiu nas mãos do The Washington Post, que enfrentou um verdadeiro dilema antes de publicá-lo. A pressão vinda da Casa Branca era muito forte, inclusive com promessas de um processo judicial que poderia levar os responsáveis pela publicação para a cadeia. É claro que a imprensa muitas vezes é responsável por um desserviço à sociedade ao impulsionar noticias falsas – principalmente nos tempos atuais -, mas aquele caso mostrou como uma matéria certa no momento certo pode colaborar para trazer a verdade a tona.

The Post é um tanto arrastado no seu primeiro ato, mas a medida que as coisas avançam a tensão aumenta. Mesmo sabendo os rumos do roteiro, não há como não se envolver com uma situação tão relevante, ainda mais com um Spielberg inspirado. Meryl Streep e Tom Hanks oferecem boas atuações e o resto do elenco é extremamente sólido, inclusive com atores que se destacaram em seriados recentemente.

Além da questão dos “papeis do pentágono” o outro tema de destaque é a quebra de barreiras por parte de Kay Graham, a primeira mulher a comandar uma empresa que ficou na lista das 500 mais importantes da revista Fortune. Ela possui o único arco do filme, já que aos poucos vai ganhando a confiança necessária para fazer o que acha certo. É justamente em alguns momentos com Kay que Spielberg dá uma exagerada na pieguice, mas o que importa é que ele conseguiu eternizar essa editora americana que foi essencial para a imprensa como um todo.

Junto com Ponte de Espiões, The Post é uma prova de que Steven Spielberg não perdeu a mão. Temos que aceitar o fato de que deslizes como Jogador Número 1 podem acontecer.

Nota: 7

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Crítica | Legítimo Rei (Outlaw King)

Legítimo Rei pode ser considerado uma sequência de Coração Valente. Se o filme dirigido por Mel Gibson termina com William Wallace torturado e morto, esta produção original Netflix começa com os desdobramentos disso.

Aliás, em dois momentos vemos pedaços do corpo esquartejado de Wallace servindo de exemplo para os escoceses que ainda almejam a liberdade. A sequência inicial também impressiona: uma longa tomada sem cortes com direito a diálogos que explicam a situação atual, um rápido duelo de espada e uma demonstração da força de uma catapulta. São cerca de 9 minutos.

Tudo isso me fez acreditar que estava prestes a ter uma ótima experiência. Ledo engano. Legítimo Rei é um épico que empalidece diante da imensa maioria dos exemplares do gênero. Talvez a comparação mais brutal seja com o próprio Coração Valente.

Em Coração Valente temos cenas de batalha coreografadas com maestria. Somos absorvidos por aquela demonstração de fúria e coragem. Há também uma história de amor envolvente. Infelizmente, não há nada disso aqui.

Não existe um pingo de originalidade na questão das batalhas. A câmera tremida, a fotografia mais escura e o excesso de cortes tiram qualquer tensão que poderíamos sentir. Todo o filme caminha para uma inevitável batalha no fim, mas ela é tão decepcionante que fica difícil de perdoar. E o resultado é mais do que óbvio.

Outro grande problema é o romance de Robert Bruce com Isabel. Todos os clichês possíveis estão aí, inclusive culminando em uma sequência final que beira o patético.

Falando em clichê, tenho que mencionar aquela irritante situação tão comum no cinema em que vemos os vilões exagerando na maldade. Que personagem mais descartável é esse Eduardo, príncipe de Gales?

Robert Bruce é quem faz o papel de herói. Ele é o rei que tentará unir os escoceses em busca da liberdade. Tal história poderia render um filme de alto nível. Não foi o caso.

Pelo menos, a parte técnica é competente em boa parte do tempo. Legítimo Rei é um filme bonito de se olhar, principalmente em tomadas mais abertas e em cenários históricos como Berwick-Upon-Tweed. Mas é só.

Esperava muito mais do diretor David Mackenzie do ótimo A Qualquer Custo. Só posso imaginar que ele não teve a liberdade criativa que precisava para nos oferecer algo decente.

Nossa querida netflix errou mais uma vez.

Nota: 5

Crítica | O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017)

O Sacrifício do Cervo Sagrado é o terceiro filme do grego Yorgos Lanthimos que eu assisto e agora me considero fã do diretor.

Mais uma vez ele nos absorve em uma atmosfera inquietante recheada de situações pouco usuais. Desta vez, seu apuro técnico chama a atenção ainda mais, principalmente quando flerta com o estilo de Kubrick.

Mas vamos a trama.

Steven Murphy é um cirurgião cardíaco de renome. Ele mora em uma casa enorme e tem uma família que se dá bem.

Os diálogos proferidos quase que no piloto automático já são um indício da estranheza do filme. As coisas ficam ainda mais estranhas no desenrolar do relacionamento entre Steven e o garoto Martin. Um fato do passado impulsiona essa relação e isso poderá levar a consequências trágicas para Steven e sua família.

Revelar mais sobre o enredo pode ser considerado spoiler e atrapalharia a experiência.

O que pode ajudar a entender o filme e o seu final é a mitologia grega, especificamente a obra Ifigénia em Áulide escrita em 408 a.c. por Eurípedes. Aliás, podemos até considerar O Sacrifício do Cervo Sagrado como uma releitura dessa tragédia grega.

Quando vemos os filmes de Yorgos Lanthimos temos que esperar o inesperado. A maioria das cenas de O Sacrifício do Cervo Sagrado nos deixam angustiados. Ficamos totalmente imersos nessa trama perturbadora. Os longos takes e a trilha sonora muitas vezes incômoda elevam ainda mais a tensão.

É necessário um pouco de paciência para se aproveitar o cinema de Yorgos Lanthimos. Talvez este seja mais um daqueles casos de ame ou odeie. Eu me incluo na primeira opção.

Nota: 9

Crítica | Nasce Uma Estrela (2018)

Nasce Uma Estrela foi um projeto arriscado, afinal a direção coube ao estreante na função Bradley Cooper e como atriz principal foi escolhida uma cantora que nunca havia sido a estrela de um filme. A suposta aposta se mostrou acertada.

Bradley Cooper comanda o filme com mão segura. Ele capturou com eficiência vários aspectos do mundo do show business, além de conceber cenas com grande carga emocional. O roteiro eventualmente soa apressado, mas como estamos muito investidos na história isso acaba não atrapalhando.

Mesmo com um enredo batido, Nasce uma Estrela funciona pois souberam atualizá-lo para os tempos atuais.

Ally divide o seu tempo entre um trabalho estafante e shows musicais em um bar de drag queens. Jackson Maine é uma estrela do country rock que já começou o seu período de decadência, apesar de ainda empolgar o público. Graças a uma feliz coincidência os dois se encontram e além de um relacionamento intenso, começam a se ajudar no palco.

Jackson Maine tem um problema que foi responsável por abreviar a carreira de muitos músicos talentosos: o vício no álcool. Ele também usa drogas ilícitas, mas é o álcool que está diariamente acabando com ele. Bradley Cooper compõe o personagem de uma forma sensacional, mudando o seu modo de falar e investido em uma linguagem corporal que diz muito.

Este não é um musical em que os personagens começam a cantar em vez de falar, mas a música obviamente é um dos principais atrativos de Nasce uma Estrela. Bradley Cooper surpreende com sua voz e Lady Gaga simplesmente brilha. Lady Gaga entrega uma performance extremamente competente, mas é cantando que ela realmente nos encanta.

Dois momentos merecem imenso destaque: a introdução do personagem de Bradley Cooper e, principalmente, a primeira aparição de Ally no palco cantando a agora famosa Shallow.

A crítica ao mundo do show business fervilha em diversas sequências. É sabido que muitas vezes não basta boas letras e uma boa voz para se fazer sucesso. Há todo um processo por trás disso envolvendo aspectos que na verdade deveriam ser irrelevantes. O problema é que o público em geral tem um certo apreço por coisas espalhafatosas. Confesso que é algo que não consigo entender. O que consegui entender muito bem quando os créditos começaram a descer é que eu estava diante de um dos grande filmes de 2018.

Nota: 8


By Brauns
ragingblog@gmail.com / Twitter

Crítica | Com Amor, Simon (2018)


Mais do que ousadia, há muita sensibilidade em Com Amor, Simon. Essa é uma história leve e divertida de amadurecimento e aceitação, mas o roteiro também não se esquece do drama e consegue fazer isso sem forçar a barra.

Simon é um garoto que sabe que é gay, mas tem medo de sair do armário. Ele tem bons amigos e uma família compreensiva, mesmo assim ele ainda não se sente capaz de dar esse passo.

O que impulsiona Simon a se revelar é o depoimento de um desconhecido no blog do colégio. A partir dai os dois trocam confissões e reflexões e logo um relacionamento virtual se consolida. Fica o mistério da identidade da outra pessoa, o que possibilita algumas expectativas curiosas.

Apesar do humor e da pegada mais tranquila, Com Amor, Simon nos oferece amostras de como ainda pode ser difícil para alguém se assumir, principalmente se considerarmos o bullying no colégio.

Como crítica, não posso deixar de falar sobre o irritante personagem Martin e o fato de suas atitudes reprováveis não terem sido adequadamente repudiadas pelo roteiro.

De qualquer forma, é um pequeno deslize de um ótimo filme que aborda um tema importante com equilíbrio e inteligência.

Nota: 8

Crítica | Vingadores: Guerra Infinita (2018)

Acredito que existam dois motivos principais para Vingadores: Guerra Infinita funcionar tão bem. O primeiro é a nossa familiaridade com a maioria dos heróis. Foram anos de diversos filmes solo que nos aproximaram de nomes como Tony Stark, Steve Rogers, Peter Parker e muitos outros. Sem todo o background que foi construído a experiência não seria tão eficiente.

E o outro motivo? É claro que é Thanos.

Thanos está naquele seleto grupo de vilões cujas motivações são claras. Ele tem uma história capaz de justificar suas ações e uma personalidade com nuances. E para completar, ele é extremamente perigoso. Thanos é realmente uma ameaça para os heróis e para o mundo inteiro, ainda mais se ele conseguir colocar suas mãos em todas as jóias do infinito.

Mesmo com cerca de 2 horas e meia, Vingadores: Guerra Infinita nunca é cansativo. As cenas de ação empolgam e são um pouco mais violentas do que o normal para a Marvel. O humor é inserido com sabedoria, geralmente com diálogos perspicazes nos momentos certos. São muitos personagens, mas não há confusão. A intensidade aumenta numa crescente até culminar em um desfecho que almeja ser épico.

Eu digo que almeja pois as corajosas decisões tomadas pelo roteiro podem ir por água abaixo no próximo filme. Nos resta torcer para que isso não aconteça.

Nota: 8

Extinção (Extinction, 2018)

Extinção é mais uma bomba produzida pela Netflix, que precisa urgentemente melhorar a qualidade de seus filmes. Somos apresentados aqui a um homem que está sofrendo com pesadelos. Ou será que são visões? Ele vê uma invasão, o mundo destruído e sua família sofrendo. As sequências alternando entre essas visões e o presente fazem o ritmo de Extinção algo errático. Quando menos percebemos as coisas começam a acontecer rápido demais. Não existe tempo para criar um mínimo de empatia por Peter e sua família. Aberrações em forma de clichês se fazem presentes, principalmente nas atitudes das filhas de Peter, que obviamente servem apenas para deixar todos em risco. Por um dado momento, achei que estava diante de um fraquíssimo spin-off Colony. Com efeitos especiais irregulares, atuações no piloto automático e uma reviravolta pouco inspirada, Extinção é uma experiência sofrível.
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