Resenha de Livro: O Mundo Conhecido

O Mundo Conhecido foi premiado com o Pulitzer de ficção em 2004. Este foi o segundo livro do autor americano Edward P. Jones. A história se passa no período próximo a deflagração da Guerra Civil Americana e foca em algumas gerações de escravos e donos de escravos. Um livro que consiga transmitir um pouco de como era sofrida e absurda a vida dos escravos deve ser valorizado. O Mundo Conhecido faz isso de maneira contundente e respeitosa. Confesso que demorei um pouco para me acostumar com as idas e vindas no tempo e quase me atrapalhei com o excesso de personagens, mas assim que consegui absorver a essência do material percebi a sua grandeza. Mesmo que você se considere um conhecedor da escravidão no continente americano, é bem possível que descubra aqui situações que nunca havia imaginado antes. Infelizmente, a maior parte delas passa longe de ser agradável.

Nota: 7

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Resenha de Livro: Ensaio Sobre a Cegueira

José Saramago é reconhecido como um dos maiores escritores da língua portuguesa e o livro Ensaio Sobre a Cegueira foi crucial para ele alcançar esse posto.

Em uma cidade grande qualquer as pessoas começam a ficar cegas. Não há uma explicação científica, mas o fato é que aos poucos a cegueira vai se espalhando como uma doença contagiosa. Inicialmente, os cegos ficam confinados em um manicômio, basicamente deixados à própria sorte. A única exceção é a mulher do médico. Não se sabe os motivos, mas ela mantém a capacidade de enxergar e vai servir como uma guia para os outros.

Nenhum personagem em Ensaio Sobre a Cegueira tem nome. Eles são chamados por características que os representam, como o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o garoto estrábico e assim por diante.

José Saramago tem um estilo muito peculiar, algo que pode assustar inicialmente. Não há travessões. O discurso direto e indireto se misturam. Frases longas são esculpidas com verve poética. Há ironia e humor negro. E assim que nos acostumamos com o jeito de Saramago escrever não queremos largar o livro, apesar dos horrores que nos aguardam.

A perda da visão em Ensaio Sobre a Cegueira mostra o que os seres humanos são capazes de fazer. Para o bem e para o mal. Em um momento presenciamos uma horrível extorsão e em outro vemos pessoas se sacrificando em prol do próximo.

Com a progressão da cegueira, o mundo entra em colapso. Saramago detalha a situação caótica que toma conta da cidade. A comida torna-se escassa, a água está desaparecendo, tomar banho é um luxo, a sujeira transborda em diversos lugares. Não há muitas esperanças e sobram questionamentos.

Ensaio Sobre a Cegueira não é apenas uma história criativa repleta de momentos memoráveis. É também uma alegoria brilhantemente escrita por um gênio da literatura.

Não é à toa que na epígrafe está escrito: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

O Caçador de Pipas

Narrado em primeira pessoa por Amir, O Caçador de Pipas nos apresenta a um homem com a consciência pesada devido a erros cometidos no passado. Agora ele vive nos Estados Unidos e irá nos contar sobre os eventos ocorridos no Afeganistão dos anos 1970. Lá ele tinha um amigo e também serviçal chamado Hassan. Hassan era de um povo considerado inferior naquele região, os hazara. Eles jogavam baralho, empinavam pipa, assistiam filmes, comiam romã direto da árvore e muito mais. O laço de amizade era fortíssimo, mas um dia Amir covardemente não impede que algo de muito ruim aconteça com Hassan. Um tempo depois, Amir tem mais uma atitude totalmente condenável que faz com que Hassan tenha que se mudar.

Tudo isso acontece em meio a invasão russa do Afeganistão, algo que irá mudar completamente esse país.

O autor Khaled Hosseini é hábil ao descrever detalhes do cotidiano afegão, nos permitindo entender como as coisas funcionavam por lá. Ele merece ainda mais elogios pelo desenvolvimento dos relacionamentos entre Amir e Hassan e também de Amir e o seu pai, o baba.

Tudo o que Amir queria era que o seu baba se orgulhasse dele, o que era difícil, pois Amir era um garoto ‘diferente’. Ele preferia ficar lendo livros e escrevendo do que jogando futebol. Para baba, faltava algo a Amir.

Anos depois surge uma oportunidade para Amir tentar se redimir. Será que agora ele terá coragem para fazer o que é certo?

O Caçador de Pipas é um livro muito fácil de ler. Khaled Hosseini tem uma escrita acessível e dinâmica, mas não apressada. Em momentos derradeiros ele cria bastante expectativa. O forte são os relacionamentos entre os personagens principais, com direito a diálogos marcantes. Há um certo exagero nos acontecimentos do ato final, que soam quase que implausíveis, mas estamos tão conectados com a história que relevamos.

Podemos julgar Amir como alguém que não deu valor ao seu melhor amigo e o prejudicou. Mas o fato é que as pessoas cometem erros ao longo da vida, ainda mais em uma idade em que a maturidade ainda está longe de chegar. Todos tem direito a uma segunda chance. Como diz Rahim Kham: Há um jeito para ser bom de novo.