Resenha de filme: Trens Estreitamente Vigiados (1966)

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Dirigido por Jiri Menzel, Trens Estreitamente Vigiados é um dos ótimos exemplares da nouvelle vague tcheca. Aparentando simplicidade e desenvolvido com maestria, o filme mostra as agruras da adolescência em plena Segunda Guerra Mundial. A estação tcheca ocupada pelos nazistas é o pano de fundo da história do jovem que sofre de ejaculação precoce e que tenta encontrar uma saída para essa situação. O roteiro nos oferece cenas de um humor inteligente e de sensualidade. Impossível não destacar o beijo interrompido pela partida do trem e um fetiche envolvendo carimbos nas partes íntimas. Isso mesmo. Para complementar, temos um final forte e inesperado. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1967, Trens Estreitamente Vigiados é daquelas pequenas jóias do cinema que são pouco vistas pelo púbico.

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Resenha de Filme: Nascido Para Matar (1987)

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É fácil observar que Nascido Para Matar é dividido em duas partes. Na primeira, o ator R. Lee Ermey oferece uma metralhadora de xingamentos e humor negro ao discursar para os futuros fuzileiros navais. O sargento Hartman deve prepará-los para a guerra, algo que faz com muita intensidade. As cenas do treinamento passam voando. É digno de pena ver o soldado Pyle sofrendo nas mãos do sargento e dos outros soldados. Na segunda parte, o cenário é a guerra do Vietnã propriamente dita. Assim como no início, acompanhamos o soldado Joker (Matthew Modine). O personagem se torna um mistério tanto para os outros soldados, como para o público. Ele utiliza um símbolo da paz, ao mesmo tempo em que pinta no capacete a frase: Nascido Para Matar. Ele explica para um oficial que isso se deve a dualidade do homem, mas nunca o compreendemos realmente. Ao contrário do que muitos pensam, não considero este um filme anti-belicista. Kubrick simplesmente mostra a guerra como ela é. Claro, o final extremamente forte é um sinal de como a guerra é ruim. Pucos filmes de guerra alcançaram o estado da arte em termos estético. Este é um deles. Cada frame nos oferece uma fotografia das mais belas. Não é para menos quando se trata de Kubrick.

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Resenha de filme: Andrei Rublev (1966)

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Talvez este seja o filme mais ambicioso de Andrei Tarkovsky, diretor russo dono de uma carreira grandiosa.Temos aqui a visão de Tarkovsky sobre a vida de Andrei Rublev, um pintor de ícones religiosos que viveu no fim da idade média. Trata-se de um verdadeiro épico mediavel com 3 horas e meia de duração, dividido em 8 capítulos. Cada capítulo mostra situações e acontecimentos que influenciaram Rublev e que também são retratos da História da Russia. Por ser longo, é natural que a experiência fique um pouco arrastada em alguns momentos, mas as imagens diante de nossos olhos são tão belas que ficamos quase que hipnotizados e pedindo por mais. O preto e branco reforça ainda mais essa beleza única.

Resenha de filme: A Doce Vida (1960)

La Dolce Vita

Confesso que não sou o maior fã de La Dolce Vita, uma das grandes obras do cineasta italiano Federico Fellini, mas consigo reconhecer suas qualidades. É engraçado. Esta é a terceira vez que assisto ao filme e a cada assistida eu acabo gostando um pouco mais do que vejo. Ainda não o suficiente para considerá-lo uma obra-prima, ressalto.

Em sua duração de quase três horas, o filme é uma junção de grandes sequências entrelaçadas, tendo como personagem principal o colunista social Marcello Rubini. A maior parte destas sequências aborda os temas da alienação, decadência moral, manipulação religiosa, sensacionalismo, entre outros. As mais marcantes para mim, e que realmente considero momentos acima da média, são as cenas em que Marcello passa com o pai e este lendário momento na Fontana de Trevi, ilustrado na foto do post.

A trilha sonora de Nino Rota desempenha um papel muito importante, inclusive com a capacidade de nos deixar um tanto hipnotizados admirando o que vemos. Apesar de considerar La Dolce Vita um pouco cansativo, me encanto profundamente com o estilo e a técnica de Fellini, um diretor capaz de criar cenas repletas de um requinte estético difícil de ser alcançado. É uma pena que não consigo me envolver realmente com os personagens e as situações, com algumas exceções.

Será que ainda me falta bagagem cinéfila para apreciar La Dolce Vita em sua plenitude? O tempo dirá. Certamente será revisto em alguns anos.

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Crítica: Ratos do Deserto (1953)

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Ratos do Deserto é um competente filme de guerra que nos apresenta a uma importante batalha da Segunda Guerra Mundial, o cerco a Tobruk, no norte da África. Em 1941 o marechal-de-campo Rommel comanda uma forte ofensiva contra a região, que foi defendida por soldados australianos pouco experientes. A fotografia em preto e branco, as atuações, as estratégias de batalha e as imagens de arquivo nos fazem pensar que estamos diante de um documentário, o que torna a experiência bem realista. As batalhas não são grandiosas, mas são razoavelmente empolgantes. Apesar do roteiro investir em uma subtrama com dois personagens, não fui capaz de me conectar com nenhum deles. Não recomendaria Ratos do Deserto para qualquer um. Para apreciar suas qualidades é necessário gostar do gênero e se interessar pela História do cinema.

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Resenha de Filme: A Estrada 47 (2013)

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Apesar de ser fã do cinema nacional e saber do seu potencial, não esperava que nossos cineastas fossem capazes de produzir um filme de guerra tão brilhante tecnicamente. Com uma linda fotografia que explora as belas e geladas paisagens da Itália, a trama retrata, de maneira cadenciada, um feito heroico de um grupo de pracinhas brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial. Após uma demonstração do despreparo psicológico de um batalhão, um grupo de soldados tenta executar o perigoso trabalho de limpar uma estrada repleta de minas, o que permitiria a entrada do exército americano na cidade. Não espere por muitas cenas de ação e combate. A Estrada 47 mostra que tiros e explosões nem sempre decidem os rumos das batalhas. Com uma narração em off repleta de sinceras reflexões, o filme transmite bem o medo de estar no meio de um conflito desse porte. As melhores sequências, mesmo sendo levemente clichês, são aquelas que destacam a aproximação de um carismático soldado brasileiro com um alemão capturado. O roteiro também merece aplausos por tratar nossos soldados de maneira honrada e sem cair no erro de glorificá-los. As referências ao samba e ao futebol poderiam ter ficado de fora, mas estão longe de atrapalhar essa ótima e surpreendente experiência.

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Resenha de filme: Santos ou Soldados (2003)

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Santos ou Soldados é uma prova de que é possível fazer um bom filme de guerra com um orçamento modesto. Para tal, são necessários um roteiro competente, atuações convincentes e criatividade na hora de trabalhar com os efeitos especiais. É o que temos aqui. A trama mostra quatro soldados que conseguiram fugir do massacre de Malmedy (Bégica), episódio da Segunda Guerra em que prisioneiros americanos foram covardemente assassinados por soldados alemães. Esses quatros soldados ganham a companhia de um inglês que cai de paraquedas na região. Eles estão atrás das linhas inimigas e vão tentar encontrar uma base aliada. Além da sobrevivência, eles também tem o objetivo de passar uma informação importante aos seus superiores.

Baseado em fatos reais, o filme oferece sequências que transmitem bem o medo e a tensão de tentar passar despercebido em uma área infestada de inimigos. Qualquer barulho nas redondezas pode ser indicativo da presença dos alemães. O grupo também precisa enfrentar o frio, a neve e a pequena quantidade de suprimentos.

Apesar das dificuldades, é uma oportunidade para que criem-se laços ainda mais fortes de amizade entre os soldados. Mesmo com a pequena duração, é possível conhecermos boa parte dos personagens e seus conflitos pessoais.

Outro ponto positivo é o combate propriamente dito. Não temos espetáculos visuais nos moldes de O Resgate do Soldado Ryan, mas as cenas de batalha são verossímeis e realçam a crueldade da guerra.

É uma pena que Santos ou Soldados tente apelar para lágrimas do público através de situações forçadas, como o soldado que quer um cigarro e por todo o subtexto religioso.

Não estamos diante de um top 20 do gênero, mas é um trabalho que merece ser visto.

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Resenha de Filme: Cartas de Iwo Jima (2006)

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A empreitada comandada por Clint Eastwood é digna de aplausos. Com A Conquista da Honra e o ótimo Cartas de Iwo Jima, o diretor nos apresentou a um importante conflito da Segunda Guerra Mundial sob a perspectiva dos dois lados envolvidos. Em Cartas de Iwo Jima, vemos o desenrolar da batalha do ponto de vista dos japoneses, os derrotados.

Boa parte do filme é dedicada a preparação do exército japonês para a defesa da ilha contra o ataque iminente. As dificuldades eram enormes. Muita energia era gasta com a escavação de túneis e o psicológico também era afetado pela pressão imposta por alguns oficiais. Os soldados conviviam com a falta de água e de comida, além da enorme saudade do lar e do medo de não conseguirem voltar com vida. Eastwood investe em três personagens principais, inclusive utilizando flashbacks para mostrar onde eles estavam antes da guerra. A identificação mais fácil é com o rapazote Saigo, um padeiro pai de família jogado no meio daquele caos.

E que caos. As cenas de batalha transmitem com precisão toda a violência da batalha. Não foi à toa que o filme recebeu o Oscar de melhor edição de som. Apesar da notória qualidade técnica, os momentos mais intimistas é que marcam, como o sofrimento dos soldados japoneses e a opção de boa parte deles pelo harakiri (o ritual suicida do guerreiro) ao invés da rendição.

Os únicos aspectos que me incomodaram um pouco foram a fotografia exageradamente dessaturada e a duração levemente exagerada. No mais, um dos grandes filmes de guerra dos últimos anos e uma ideia genial de Clint Eastwood.

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Resenha de filme: Psicose (1960)

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Clássico absoluto. Hitchcock atinge o ápice do seu talento de maneira magistral. Uma mulher rouba 40 mil dólares do próprio chefe e foge. Ela dirige a esmo, até parar em um hotel de beira de estrada. Os 40 mil dólares não passam de uma desculpa para conduzir a moça até o hotel e perdem importância para a história. É o famoso MacGuffin, recurso narrativo muito explorado pelo diretor. A partir daí temos o melhor exemplo de como criar um filme de suspense. Tudo é construído para nos deixar com medo do hotel, do dono e de sua mãe. A cena do chuveiro é uma das mais famosas do cinema, não por acaso. Hitchcock investe em enquadramentos interessantes e perturbadores, dando vida a um filme dono de uma atmosfera muito intensa. Destaque também para a atuação de Norman Bates e o estudo psicológico que é feito sobre o seu personagem.

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Resenha de Filme: Apocalypse Now (1979)

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Poucos diretores enfrentaram tantos problemas na produção de um filme como Francis Ford Coppola enfrentou ao realizar este épico surreal sobre a Guerra do Vietnã. Teve de tudo: um tufão destruindo um set de filmagem, um animal sacrificado, uma estrela acima do peso e cheia de exigências (Marlon Brando), um ator principal infartando (Martin Sheen) e uma enorme dúvida em relação ao ato final. Apesar de tudo isso, com muita coragem e alguns desentendimentos, Coppola nos entregou um trabalho inesquecível, repleto de sequências que entraram para a História do cinema e que ainda hoje são referências de qualidade.

O capitão Willard recebe uma estranha e perigosa missão. Ele deve embarcar em uma jornada pelo rio Nung, com o objetivo de encontrar e assassinar o Coronel Kurtz, um valioso membro do exército americano que decidiu abandonar suas obrigações militares para viver nos confins do Camboja, local onde lidera uma milícia potencialmente perigosa.

Ao longo do caminho Willard lê o dossiê sobre Kurtz e, aos poucos, começa a admirá-lo. Será que Willard vai conseguir cumprir a missão?

Apocalypse Now é recheado de cenas espetaculares, como o famoso ataque dos helicópteros ao som de Cavalgada das Valquírias e o início com a trilha sonora do The Doors e uma boa dose de napalm. Coppola também não se esquece de mostrar o despreparo e a loucura que acometia boa parte dos soldados americanos, que preferiam atirar para depois perguntar.

Indicado a 8 Oscars, levou melhor fotografia e melhor som. Quem venceu melhor filme em 1980 foi Kramer vs, Kramer. Injusto, claro.

Tal como a própria guerra do Vietnã, Apocalypse Now é brutal, trágico e insano. Uma obra-prima.

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