Crítica: Caro Diário (1993)

Dividido em três partes, Caro Diário é um filme autobiográfico de Nanni Moretti que colecionou alguns prêmios no começo dos anos 1990. A primeira parte mostra o diretor passeando por vários locais de Roma com sua vespa. Misturando humor, críticas e nostalgia, o autor não abandona a leveza ao comentar assuntos relevantes para ele. Aqui ele expõe sua admiração pelo filme Flashdance e também confessa não entender como alguém poderia elogiar Retrato de um Assassino. A trilha sonora inspirada e a fotografia belíssima quase são capazes de nos hipnotizar. A segunda parte se passa em algumas ilhas e faz o filme perder um pouco a força, apesar de possuir momentos engraçados. A terceira parte é sobre a epopeia de Moretti para finalmente receber o diagnóstico correto do prurido que teve por meses. Por mais séria que tenha sido a situação, o diretor nos conta sobre as inúmeras consultas e tratamentos inúteis com um humor peculiar. Caro Diário mostra que a jornada no mundo particular de um criador é sempre uma experiência fascinante.

Nota: 9

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Cinema Paradiso (1988)

Nota: 8

O vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1990 é uma verdadeira declaração de amor ao cinema. O diretor Giuseppe Tornatore faz de Cinema Paradiso um trabalho sincero e que realmente tem algo a dizer. Para completar, Ennio Morricone assina a trilha sonora e deixa a experiência mais marcante ainda.

O filme é contado através de um longo flashback. Totó em idade adulta recebe a notícia de que um certo Alfredo havia morrido. Ele deita em sua cama e começa a relembrar do passado. Quando criança, Totó já era apaixonado por cinema e assim como toda a cidade em que vivia passava horas assistindo a diversos filmes na telona. É empolgante acompanhar as reações do público aos filmes. Eles parecem viver as histórias e com isso derramam lágrimas sem fim nos filmes tristes, riem absurdos com Chaplin e ficam raivosos por não poderem assistir cenas de beijo, que eram censuradas pelo padre da cidade. O tal Alfredo era o projecionista do cinema, trabalho que adorava, pois sentia que ele próprio tinha poder sobre as emoções do público.

Rapidamente Totó e Alfredo desenvolvem uma grande amizade. Como o garoto perdeu o pai na guerra e Alfredo não tinha filhos, fica evidente que Alfredo se transforma numa figura paterna. Sorte de ambos, que aprendem muitas coisas importantes um com o outro. Cinema Paradiso é tão rico em detalhes que exige uma segunda assistada. Não falo só das inúmeras referências ao cinema, mas também da própria população da cidade e seus exemplares excêntricos, como o mendigo que diz ser dono da praça e um engomadinho que não hesita em cuspir na cabeça dos outros. Declaração de amor ao cinema e também uma amostra de quão importante uma amizade verdadeira pode ser. Quando Totó resolve ir para cidade grande Alfredo lhe dá um conselho que pode ser considerado clichê, mas que não é tão fácil de seguir: não importa o que você fizer da vida, AME ISSO. Sábias palavras de um personagem encantador, assim como todo o filme.

Título original: Nuovo Cinema Paradiso
Ano: 1988
País: Itália
Direção: Giuseppe Tornatore
Roteiro: Giuseppe Tornatore
Duração: 124 minutos
Elenco: Salvatore Cascio, Antonella Attili, Philippe Noiret, Leopoldo Trieste, Marco Leonardi

/bruno knott

Gomorra

Título original: Gomorra
Ano: 2008
Diretor: Matteo Garrone

Já vi Gomorrah tentar ser vendido como um Cidade de Deus italiano e lamento. Ambos os filmes retratam duas cidades que estão mergulhadas no crime, mas esta é a única semelhança. As abordagens são completamente diferentes, tanto em termos técnicos, como na maneira que as histórias são contadas. O filme é baseado no livro de Roberto Saviano, que foi corajoso (ou louco?) para escrever sobre a camorra, a máfia de Napoles, no sul da Itália.

Acompanhamos 5 histórias diferentes que se relacionam com o crime organizado de Nápoles das mais variadas formas. Há um menino, Totó, que pretende fazer parte do grupo. Temos dois jovens ingênuos e fãs de Scarface que querem dominar a região. Um alfaiate que decide ganhar uma grana por fora trabalhando para os chineses. Um cara que lucra com o enterro de lixo tóxico e um outro que trabalha levando e trazendo dinheiro.

O detalhe interessante é que não há nenhum chefão na história. Nenhum Don Corleone ou algo assim. O filme desenvolve um painel do crime organizado de uma forma bem palpável. O filme transcorre de uma maneira interessante, mais calma que o normal para filmes desse tipo, o que nos permite sentir o filme e nos importar com os personagens.

Gomorra tem algumas cenas violentas, mas, o mais perturbador é constatar que Nápoles é uma cidade completamente consumida pelo crime, assim como grande parte das importantes cidades do mundo.

Nota: 4/5