Crítica: Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (2014)

A Million Ways to Die in the WestDirigido e estrelado por Seth MacFarlane, Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola é típico besteirol americano sem qualidade. Ambientado no velho oeste, o filme é uma verdadeira bagunça em termos de enredo. Por um tempo maior do que o necessário, vemos Albert demonstrando sua covardia, tendo problemas de relacionamento e arrumando confusões. A ideia é satirizar o gênero Western, algo que é feito com pouca inspiração. O humor aqui é dos mais sem graça, com piadas que se repetem ciclicamente e tornam-se mais do que previsíveis. Isso sem falar nas cenas apelativas e forçadas. Acho que tivemos umas 4 piadas envolvendo gases e fezes líquidas em menos de 20 minutos. Confesso que ri um pouco no primeiro ato, mas na maior parte do tempo fui tomado pelo tédio e pelo desejo de simplesmente abandonar a sala do cinema. Corajosamente (e de maneira masoquista), fui até o fim e pude confirmar uma suspeita: Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola entra forte na disputa de pior filme do ano. Favoritaço!
4/10

Crítica: No Limite do Amanhã (2014)

edge-of-tomorrow-2014Em um futuro não muito distante, nosso planeta Terra está prestes a sucumbir à uma invasão alienígena. Cage (Tom Cruise) é um oficial do exército sem experiência bélica obrigado a ir para o front de batalha. Sentimos o medo dele nos momentos que antecedem a chegada na praia tomada pelo caos da guerra. Para vocês terem uma ideia, Cage não sabe nem destravar a arma do seu exoesqueleto e tem aversão a sangue. Em poucos minutos, o inevitável acontece: ele morre!

Calma, não se trata de um spoiler. Surpreendentemente, ele acorda no dia anterior e vai reviver tudo isso, com a oportunidade de mudar o próprio destino e o do mundo inteiro. Esse é um exemplo da magia do cinema e da ficção científica! A explicação para tal fenômeno é obviamente absurda, mas qual não seria? Isso é o menos importante.

No Limite do Amanhã mistura elementos de filmes como Feitiço do Tempo, Tropas Estelares e Contra o Tempo, obtendo um resultado dos mais interessantes. Apesar de Cage reviver o mesmo dia ad aeternum, o enredo está longe de ser repetitivo. A edição e a interpretação de Tom Cruise são essenciais para isso. Cruise consegue nos fazer entender quando seu personagem está revivendo alguma situação ou quando encara algo pela primeira vez.

Tal elemento do roteiro abre espaço até para cenas de humor, algo que é executado de maneira que beira a perfeição. Dessa forma, somos embalados por uma história repleta de ação de qualidade, boas doses de humor e atuações competentes, fazendo de No Limite do Amanhã um blockbuster eficiente.

Infelizmente, o filme perde força no ato final e opta por uma resolução pouco imaginativa. Mas sejamos justos, esses deslizes tiram bem pouco do brilho desta ótima Sci-Fi.
8.5/10

Crítica – The Rover: A Caçada (2014)

the-rover-a-cacadaO lugar: Austrália.

O período: 10 anos após o colapso.

O enredo: um grupo de três bandidos rouba o carro do solitário Eric, que inicia uma caçada até as últimas consequências.

E é basicamente isso. O mais novo filme do diretor David Michôd (Reino Animal), oferece muito pouco em termos de narrativa e peca por não explorar satisfatoriamente este mundo apocalíptico.

Não sou fã de diálogos expositivos e de explicações mastigadas, mas em filmes como esse algumas respostas são bem-vindas. O que foi este tal colapso que nos é informado na primeira cena? Foi uma crise financeira? Como estão as coisas na capital do país e em outros locais do mundo?

Mesmo com todo esse minimalismo, não podemos negar que a ambientação é fascinante. Os cenários desolados e pouco povoados criam um enorme tom de urgência. Há perigo em qualquer lugar e em qualquer tipo de contato com outra pessoa. Não é à toa que muitos preferem atirar antes e perguntar depois.

Mas voltemos a trama principal. Eric passa todo o filme no encalço dos bandidos que levaram o carro dele e no meio do caminho acaba conhecendo Rey, o irmão de um desses bandidos.

Robert Pattinson oferece uma atuação interessante, transformando Rey no único personagem razoavelmente relevante. Infelizmente, outro pecado do filme é não nos dar a chance de nos conectar com Eric, assim o resultado de sua busca não nos desperta maiores emoções.

The Rover é uma grande oportunidade perdida. Ainda que tenha momentos marcantes (muito pela violência) e uma ótima fotografia, fica devendo bastante em aspectos fundamentais do bom cinema.
6/10

Crítica: Desencanto (Brief Encounter, 1945)

desencanto-1945Se me pedissem para descrever Desencanto com apenas uma palavra, seria “perfeição”. Sem medo de soar exagerado, creio não haver outra forma de definir este que foi considerado o filme mais romântico de todos os tempos pela revista time out

Dirigido por David Lean, famoso por seus épicos como A Ponte do Rio Kwai e Doutor Jivago, e baseado em uma peça de um ato escrita por Noel Coward, Desencanto nos mostra a história de duas pessoas comprometidas que se conhecem em uma estação de trem e desenvolvem um profundo sentimento um pelo outro. Tudo se passa na Inglaterra durante o final da Segunda Guerra, portanto um período um tanto rígido em termos morais. Não seria das coisas mais aceitáveis duas pessoas casadas se entregarem a um romance extraconjugal, algo que é muito bem retratado aqui pela hesitação dos personagens de admitirem que se apaixonaram, principalmente no caso de Laura.

Aliás, uma narração em off de Laura nos acompanha durante quase todos os 90 minutos do filme e reside aí um dos motivos que o fazem ser tão bom. A decisão de tudo ser mostrado através de um flashback é outro acerto, assim ficamos curiosos para saber o que aconteceu para a melancolia tomar conta do casal na primeira cena. 

É uma pena que Desencanto não seja tão lembrado como os outros clássicos do diretor. Particularmente, considero esta a melhor obra dele. Uma história de amor honesta, delicada e nada apelativa, capaz de nos tornar cúmplices de ambos os personagens principais. Sabemos que é um romance sem futuro desde o início, porém fica a esperança de que essas duas almas possam compartilhar esse enorme afeto para sempre. 

Entrou automaticamente no meu TOP 100 e acredito que posso recomendar a qualquer um que goste de cinema!
10/10

Crítica: Ladrões de Bicicletas (1948)

ladroes-de-bicicletaLadrões de Bicicletas é o maior nome do neorrealismo italiano e também um dos grandes clássicos do cinema mundial. Em 1949 recebeu um Oscar honorário e em 1952 foi considerado o melhor filme de todos os tempos pela revista britânica Sight and Sound. Assim que a palavra “fine” aparece na tela, conseguimos facilmente entender a admiração e o respeito que o filme possui.

Eu assisti ao filme pela primeira vez há 5 anos e posso dizer que a segunda experiência foi ainda melhor. A emoção recebida foi a mesma, mas creio pude absorver alguns detalhes que passaram despercebidos na primeira sessão.

O enredo desta obra-prima de Vittorio De Sica não poderia ser mais simples: Antonio Ricci vislumbra uma possibilidade de melhorar a condição de vida de sua família ao conseguir um emprego como colador de cartazes. Para executar tal tarefa necessita de uma bicicleta, que ele consegue após sua esposa penhorar roupas de cama. Logo no primeiro dia, Ricci tem a bicicleta roubada. Mais do que a bicicleta, roubaram a perspectiva de dias melhores em uma Itália repleta de problemas no período pós-guerra. Ele e o filho Bruno tentarão de todas as formas reavê-la. 

Assim como outros exemplares do movimento neorrealista, Ladrões de Bicicletas traz a tona dramas reais. Para compor o elenco, foram escolhidos não profissionais e o resultado não poderia ter sido melhor. Autenticidade é o que não falta. Somos transportados para aquela sofrida Itália e torcemos para que Ricci e Bruno tenham sucesso na busca. 

São várias as sequências marcantes. A que mais me comove é aquela na qual pai e filho jantam numa pizzaria, mesmo sem terem encontrado a bicicleta. Trata-se de um pequeno momento de fuga e de alegria, mas infelizmente os clientes esbanjadores do local não os deixam esquecer da complicada situação em que se encontram.

Um fato me chamou bastante a atenção. Em alguns momentos, Ricci está tão empenhado na procura pela bicicleta, que às vezes parece não se importar com o próprio filho. É só perceber uma cena em que Ricci sai correndo em disparada e o garoto fica para trás, com dificuldades para atravessar as ruas e quase sendo atropelado. É o desespero, afinal a bicicleta representa a chance de uma vida mais digna.

Ladrões de Bicicleta mistura sensibilidade e rudeza de maneira perfeita. É uma história que jamais perde a força, tanto pela qualidade do diretor e do elenco, como também pela sua natureza atemporal. Temos aqui uma mensagem forte transmitida de maneira poética. Esta é a árdua batalha diária de um herói anônimo, como outros tantos. 
10/10

Crítica: Roma, Cidade Aberta (1945)

cittaapertaEste é um daqueles filmes que se tornaram clássicos desde o nascimento. Roberto Rossellini driblou as limitações técnicas de uma Roma ainda debilitada após o fim da Segunda Guerra e entregou uma obra realista, trabalhando com um estilo quase documental. Estava criada o neorrealismo italiano, movimento que atingiu seu ápice com Ladrões de Bicicleta alguns anos depois.

O enredo mostra a resistência romana contra opressores nazistas. Não há uma história com começo, meio e fim nos moldes como estamos acostumados. É mais um punhado de sequências que mostra as dificuldades e a urgência do período.

Alguns personagens se destacam, como o padre e Pina. O detalhe é que a maior parte dos atores eram amadores, o que deixou as coisas ainda mais naturais.

Roma, Cidade Aberta é uma obra inovadora, influente e marcante. Ajudou a impulsionar as carreiras de Rossellini e Federico Fellini (que assina o roteiro) e ainda foi reconhecido com o grande prêmio do festival de Cannes em 1946.
8/10
 

Crítica: Godzilla (2014)

Godzilla-2O ícone do cinema Godzilla merecia um filme que não fosse um insulto ao original de 1954 e é exatamente isso que o diretor Gareth Edwards consegue nos entregar aqui. Já podemos esquecer aquela versão problemática de Roland Emmerich de 1998.

O filme possui mais acertos do que erros e no final das contas temos um blockbuster que cumpre bem o papel de nos entreter.

Talvez o grande acerto desta nova versão de Godzilla tenha sido a opção do diretor de não revelar o personagem-título logo de cara, aumentando bastante nossas expectativas e o impacto de finalmente vê-lo na tela. Infelizmente, fica a sensação de que ele poderia ter aparecido um pouco mais. De qualquer forma, o roteiro merece aplausos por investir um bom tempo no desenvolvimento dos personagens humanos. Bryan Cranston e Aaron Taylor-Johnson tem atuações sólidas, colaborando para nossa imersão na história.

As cenas de destruição e dos combates entre o Godzilla e os outros dois monstros são dirigidas de maneira empolgante e elegante ao mesmo tempo. Não temos aqui aquela câmera tremida e planos fechados que vimos em Círculo de Fogo, o que já é um ganho imenso. Algumas sequências são de uma notória beleza, como quando vemos os paraquedistas se aproximando da cidade caótica.

Ainda tenho minhas dúvidas se havia necessidade de um remake, mas não vou negar que me diverti mais do que esperava.
7.5/10