Crítica: Vampyr (1932)

vampyr-1932-de-carl-dreyer-iGraças a obras como A Paixão de Joana D’Arc, Gertrud e A Palavra me tornei fã de Carl Theodor Dreyer, mas confesso que me decepcionei bastante com Vampyr, a primeira incursão do diretor no cinema falado.

Trata-se de uma experiência diferente, sombria e estranha. A temática do vampiro é abordada como se estivéssemos presenciando um pesadelo e o enredo extremamente confuso, como uma sucessão de sonhos enigmáticos, beirando o surrealismo.

Melhor não tentar entender a história. O filme possui imagens poderosas o suficiente para nos deixar ligados, como aquela cena cujo ponto de vista é de um cadáver dentro de um caixão, porém é muito pouco para termos a sensação de que acabamos de ver um grande filme. Está bem longe disso.

Crítica: Garota Exemplar (2014)

garota-exemplar-2014Garota Exemplar é mais uma prova do talento do diretor David Fincher. Aqui conhecemos a história de um casal que está prestes a completar 5 anos de casados, quando a garota simplesmente some do mapa. Devido a personalidade um tanto blasé do marido e a algumas situações peculiares, ele se torna o principal suspeito. O clima de mistério se faz presente de maneira intensa e quanto mais próximo do fim o suspense também se fortalece, remetendo em alguns momentos até a Hitchcock. Não faltam surpresas, reviravoltas, humor negro e até uma crítica à imprensa tendenciosa. A montagem eficiente, a trilha sonora inspirada de Trent Reznor e as atuações sólidas de Ben Affleck e Rosamund Pike são essenciais para fazer deste um dos ótimos filmes do ano.

8.5/10

Crítica: O Sétimo Selo (1957)

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O sueco Ingmar Bergman foi um diretor essencial para a consolidação do cinema como arte e O Sétimo Selo é uma de suas obras mais importantes e aclamadas. O filme se destaca pela qualidade técnica grandiosa e por proporcionar várias reflexões, principalmente ao abordar temas como a morte, a fé, o sentido da vida e a procura por Deus.

Antonius Block é um cavaleiro medieval que retorna a terra natal após participar das cruzadas por 10 anos. No caminho, encontra-se com a Morte e, para tentar ganhar um pouco mais de tempo para buscar o sentido da vida, propõe um jogo de xadrez.

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Ao chegarem na Suécia, Block e seu escudeiro encontram uma terra destruída pela guerra, pela peste, pela fome e pelas superstições. A procissão dos flagelantes reforça ainda mais o clima de juízo final em uma sequência que, na minha opinião, é a mais poderosa de todo o filme.

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O Sétimo Selo não possui uma narrativa exatamente tradicional. Trata-se mais de uma sucessão de cenas que mostram o sofrimento da população e a angústia do personagem principal na busca de Deus. E para deixar tudo mais interessante, podemos considerar o filme como uma alegoria do mundo moderno, afinal nos anos 1950 vivia-se o medo palpável de uma guerra nuclear.

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Mas nem tudo é desespero. O diretor nos mostra que mesmo em um mundo caótico podemos desfrutar de inúmeros prazeres, como a música, o teatro, a companhia de pessoas agradáveis ou um simples pote de morangos silvestres.

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Temos aqui um filme que consegue equilibrar arte e entretenimento de maneira única. Bergman nos permite ter uma experiência estimulante intelectualmente, visualmente agradável e com direito a algumas doses de humor. Confesso que não havia gostado tanto de O Sétimo Selo no primeiro contato que tive com ele, quando eu tinha uns 15 anos. Agora, beirando os 30 e já totalizando 4 sessões, posso dizer que o considero uma obra-prima extremamente rica e que está no meu top 20 de todos os tempos.

o-setimo-selo-a-morteNota: 10

A Palavra (Ordet, 1955)

ordet-1955-05-gA maioria dos cinéfilos considera O Martírio de Joana D’Arc o melhor filme do diretor dinamarquês Carl Theodor Dreyer, porem eu faço parto do grupo que prefere este monumental A Palavra. Ambientado em uma região rural nos idos de 1920, o filme nos mostra um embate espiritual e religioso entre duas famílias que possuem crenças diferentes. Com planos longos e um ritmo inevitavelmente mais lento, a experiência jamais deixa de ser hipnótica e intensa. Graças aos diálogos bem escritos, tomamos conhecimento da personalidade e das convicções de cada personagem, algo essencial para elevar nossa expectativa e nos fazer acreditar na possibilidade de presenciarmos um milagre. Também considero momentos de destaque a presença do médico local, proporcionando discussões entre fé e ciência, além das menções ao filósofo Kierkegaard10/10

Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952)

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Nunca fui um grande fã de musicais, mas existem alguns exemplares do gênero que jamais deixam de me empolgar, como é o caso do intocável clássico Cantando na Chuva. É claro que o momento mais memorável se dá quando Gene Kelly dança, canta e sapateia na chuva, porém o filme é recheado de cenas vibrantes e até sensuais, além de funcionar como um retrato preciso e bem-humorado de um período crucial para a sétima arte: a transição do cinema mudo para o cinema falado. O enredo aborda tanto a dificuldade de adaptação de alguns atores, como inúmeras dificuldades técnicas em relação a posição do microfone e a captação de ruídos. Esnobado pelo Oscar, ganhou a admiração dos cinéfilos ao longo dos anos e envelhece cada vez melhor.
9.5/10

Crítica: A Luta Pela Esperança (2005)

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Sempre tive preguiça de assistir a Luta Pela Esperança, um pouco por se tratar de boxe – um tema já muito abordado – e, também, pela relativamente longa duração. Não que se trate de umótimo filme, mas o fato é que fui surpreendido por suas qualidades e quase me arrependi de ter esperado tanto tempo para “encará-lo”.

O roteiro é baseado na história de James Braddock, uma verdadeira lenda do esporte. Como a maioria das adaptações cinematográficas, várias modificações foram feitas, algumas gerando resultado positivo e outras nem tanto.

Tudo se passa nos anos que se seguem a Grande Depressão, provavelmente o pior período enfrentado pelo povo americano. James Braddock e sua família foram uma das muitas vítimas daquela trágica realidade. Por um excesso de derrotas, lesões e pela falta de dinheiro, Braddock teve que largar o boxe e tentar arranjar algum dinheiro em serviços temporários, algo nem sempre possível.

O pior momento de vida dele e também o momento de maior impacto emocional do filme, se dá quando Braddock deixa o orgulho de lado e vai pedir dinheiro para alguns de seus conhecidos.

Eis que a oportunidade de voltar aos ringues cai dos céus. O problema é que um de seus próximos adversário é dos mais brutais, tendo, inclusive, matado dois oponentes com seus potentes golpes.

A Luta Pela Esperança não se esforça para fugir da fórmula dos filmes de esporte e exagera ao transformar Max Baer em um vilão de caráter desprezível. Os 144 minutos de duração também se tornam um defeito, já que nem todas as cenas se mostram realmente importantes para a história.

Apesar de tudo, graças a eficiente direção de Ron Howard e as inspiradas atuações de Russell Crowe e Paul Giamatti (indicado ao Oscar de ator coadjuvante por esse trabalho), conseguimos nos envolver com todo o drama vivido pelo lutador e ainda experimentamos um pouco de suspense na luta final. Aliás, é mesmo dentro do ringue que A Luta pela Esperança se destaca. As lutas são mostradas com muita brutalidade e competência técnica, com direito a boas doses de emoção.

Não é um filme que eu assistiria novamente, mas não poso negar que tive uma boa experiência e que me sinto à vontade para recomendá-lo, principalmente para os que tem mais afinidade pelo tema.
8/10

Crítica: O Salário do Medo (1953)

o-salario-do-medo-1Dirigido por Henri-Georges Clouzot e estrelado por Yves Montand, O Salário do Medo é uma aventura cheia de tensão, cujo resultado é totalmente imprevisível. O primeiro ato do filme investe um bom tempo no vilarejo de Las Piedras, localizado em algum lugar da América Latina. Tal localidade se tornou um reduto de estrangeiros sem dinheiro, em busca de qualquer trabalho minimamente decente.

Eis que surge uma oportunidade quando uma empresa americana precisa transportar nitroglicerina até um poço de petróleo que pegou fogo. Trata-se de uma missão praticamente suicida, dada a instabilidade do produto e o longo e tortuoso caminho que quatro pessoas deverão percorrer dirigindo dois caminhões. O pagamento: 2 mil dólares. Seria este o preço de uma vida?

Há quem reclame de uma certa lentidão da primeira parte, porém ela é essencial para desenvolver alguns personagens e ressaltar a precária situação de Las Piedras e seus habitantes. Assim nos envolvemos muito mais com eles e nos importamos com os arcos narrativos, principalmente com o de Jo, que passa de “cabra da peste” para covarde em questão de quilômetros.

Os obstáculos enfrentados tornam-se cada vez mais complicados, nos deixando em dúvida se eles conseguirão alcançar o destino. O suspense se faz presente em cada instante. Não é à toa que Clouzot já foi chamado de Hitchcock francês.

Algumas críticas ao capitalismo também podem ser percebidas, enriquecendo este material que é, na essência, um entretenimento de muita qualidade. Como curiosidade, O Salário do Medo foi o primeiro filme a vencer tanto o urso de ouro em Berlin, como o grande prêmio do festival de Cannes.
8.5/10